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quinta-feira, agosto 04, 2005

ENTREVISTA AO ESCRITOR CUBANO LEONARDO PADURA



Leonardo Padura, autor de "O Romance da Minha Vida"

"Cuba é um país maior do que a sua geografia"

Leonardo Padura, escritor cubano autor de policiais como "Morte em Havana", "Paisagem de Outono" e "Ventos de Quaresma", deu um rumo diferente à sua carreira com "O Romance da Minha Vida" (Edições ASA, 18,90 euros). Misturando factos reais com ficção, conta a história de um grande poeta cubano do início do século XIX, José María Heredia, ao mesmo tempo que nos dá a conhcer a história e a realidade social cubana vista a partir do interior.


- "O Romance da Minha Vida" foge um bocado da linha a que nos habituou, nomeadamente a relacionada com os policiais. Pode explicar-nos de que trata este livro?
LEONARDO PADURA - Este romance pretende ser uma homenagem a determinadas realidades da vida e da História cubana. De um lado, está a vida de José María Heredia, poeta fundador da sensibilidade e da poesia cubana. Um homem bastante fossilizado; tinha-se transformado numa estátua e num índice de poesia numa biblioteca. Tentei ver a vida que pode ter tido este homem, sobretudo através de experiências como o exílio, a nostalgia, a marginalização, o esquecimento, a censura. Mas quis ver tudo através de uma perspectiva contemporânea. Por um lado é a história da vida de Heredia e, por outro, a procura dos manuscritos onde se conta a vida de Heredia, por um cubano contemporâneo que regressa do exílio.
Há uma terceira via que é o destino desses documentos - totalmente fictícios - numa história que se desenvolve à volta da figura do último dos filhos de Heredia, que está vivo no início do século XX no círculo das lojas maçónicas. Foi outra homenagem que quis fazer, à maçonaria cubana, não apenas pelo que significou historicamente em todo o processo das lutas independentistas mas também pela grande capacidade de resistência que demonstrou nos anos da Revolução. De tal forma que hoje em dia é uma irmandade que existe em Cuba, que cresceu, atraiu novos membros e que continua a manter um princípio ético que me parece importante: a fraternidade entre os homens.

- José María Heredia é praticamente desconhecido em Portugal. Pode dizer-nos quem é este poeta?
LP - A literatura cubana já como conceito cultural independente foi forjada nos anos 20 e 30 do século XIX, numa altura em que a ilha era ainda um colónia espanhola. José María Heredia, ainda muito jovem, foi o primeiro poeta que começou a expressar um sentimento patriótico, um sentimento diferente do espanhol. As suas primeiras influências foram as do classicismo, mas rapidamente tendeu para o romantismo. Era um típico poeta romântico, uma espécie de Lord Byron cubano. Ligou-se aos movimentos independentistas, nos quais participou, vai para o exílio, onde morre jovem. No exílio escreveu uma parte muito importante da sua poesia na qual a imagem de Cuba, a nostalgia por Cuba e a sua visão da necessidade da liberdade em Cuba são os temas fundamentais. Tornou-se também no primeiro grande poeta romântico da língua espanhola em todo o mundo. É o autor de alguns dos poemas mais importantes da literatura cubana, sobretudo através da sua obra-prima, "Niagara". É um poeta civil, político, muito importante. É a génese de tudo.

- A Cuba que conhecemos actualmente é a da política e do turismo, mas é também um país com História. Os cubanos têm orgulho na sua História? Este livro serve para recuperar esse sentimento?
LP - Nós, os cubanos, entre muitos outros defeitos, temos o de ser excessivamente orgulhosos e desproporcionados. Cuba é um país que, na realidade, é maior do que a sua geografia. A música cubana, a literatura, o desporto, a própria política, têm proporções internacionais muito maiores do que seria normal, sendo uma pequena ilha do Caribe. Muitas vezes Cuba é vista através de estereótipos, essencialmente aqui na Europa. E não é que os europeus sejam dados aos estereótipos, até porque interessam-se muito mais pelo resto do mundo do que os norte-americanos. Mas Cuba tem vários estereótipos: Fidel Castro e o comunismo, turismo, prostituição, rum, tabaco, música, que estão correctos. Mas o país é muito mais. Tem uma vida quotidiana muito intensa e às vezes muito difícil para as pessoas. Há uma literatura que eu penso que é uma das expressões culturais e espirituais mais importantes do país. Sobretudo porque preencheu o vazio deixado pela Comunicação Social do país. Esta pertence ao Estado e praticamente faz só trabalho de propaganda, mais do que análise e informação. Muita dessa análise é feita através da literatura. Portanto, penso que uma das melhores formas de conhecer Cuba é ler os seus escritores e, felizmente, nos últimos 10/15 anos, houve uma recuperação dessa literatura no mercado europeu.

- Os seus famosos policiais fazem um retrato da sociedade cubana pouco conhecido por cá…
LP- Sim, nestes romances um dos objectivos é problematizar a sociedade cubana de hoje. Não me interessa escrever um livro se nele não fizer a tentativa de criar uma história, personagens, uma situação que fale ao leitor cubano dos seus problemas, da sua vida, da sua esperança, do seu desencanto. A literatura policial foi uma forma achada para poder mostrar o lado obscuro da sociedade, a corrupção, o crime, o roubo, os problemas morais. Por isso, mais do que literatura policial entendo-a como uma literatura social. Permite-me, tal como o novo romance, reflectir sobre a vida cubana sem entrar directamente no tema da política. Este, em Cuba, não tem nuances, é-se a favor ou contra, e não quero estar explicitamente em nenhum dos campos. Quero que as minhas histórias, as minhas personagens, as situações que se desenvolvam, sejam as que sugiram ao leitor uma proposta política, para não ser eu a dar essas respostas. Eu mesmo, como indivíduo, tenho mais perguntes que respostas. Então, estes são livros de perguntas e não de respostas.

- Porque é que a literatura tem mais liberdade de expressão que os jornais? O regime não se incomoda?
LP - O verdadeiro motivo é que ambos têm canais diferentes. Os jornais são dirigidos directamente por organizações políticas - o Partido Comunista, a Juventude Comunista, os sindicatos. Os livros têm outros canais de circulação, felizmente muito mais liberais e permissivos. Tenho muito orgulho que os meus livros sejam muito mais lidos do que a quantidade de exemplares físicos que existem. No ano passado "O Romance da Minha Vida" ganhou o prémio dado pela Rede Nacional de Bibliotecas Públicas de Cuba e pela Biblioteca Nacional por ter sido o livro mas lido escrito por um autor cubano. É um livro que chegou a muita gente, porque em Cuba há muitos leitores.

- Mistura em "O Romance da Minha Vida" realidade e ficção. Como consegue dosear estas duas vertentes?
LP - Na parte em que se narra a vida de Heredia, está narrado na primeira pessoa. Hoje em dia, ao ler o romance, três anos depois de o ter terminado, há momentos em que já não sei distinguir a ficção da realidade. Porque misturo tudo, é uma das vantagens do romancista, que não tem o historiador. Este tem que trabalhar com dados, documentos e provar esses dados. O romancista pode ficcionar a partir de uma realidade. O que é certo é que todos os elementos que aparecem no romance ou aconteceram ou podem ter acontecido conforme provam as minhas investigações, que foram bastante profundas.

- Já escreveu sobre Heredia, sobre Hemingway, gostaria que um dia também escrevessem sobre si?
LP - Acho que durante uns tempos não vou escrever sobre escritores. Tenho dois projectos. Um tem a ver com uma história de dispersão, é a história de uma grupo de amigos de Cuba que se separam. É a história desses amigos, dos seus filhos, dos seus netos, através de 50 anos. E tenho outro romance em mente de carácter muito mais político, não directamente sobre a realidade cubana, mas onde onde ela aparece. É uma personagem muito importante da política do século XX, mas que não quero adiantar quem é.

- Que tipo de relação mantém com a sociedade cubana?
LP - A minha relação com o contexto cubano é um pouco estranha. Eu vivo afastado do mundo cultural, político e social cubano. Dedico-me muito ao meu tabalho, é o que me interessa. Vivo num bairro periférico da cidade, assisto pouco a eventos sociais. E, sem dúvida, o facto de viver neste bairro, que é um micro-cosmos, permite-me uma ligação muito directa à realidade. A minha ligação à realidade cubana passa pela gente do bairro.

- Como explica o sucesso da literatura cubana em todo mundo?
LP - Há muitas explicações. Cutriosidade política, um certo sentimento mórbido pela vida em Cuba, as dificuldades, as contradições. É um país onde de um dia para o outro podem fazer uma operação de coração aberto sem que custe um centavo e na semana seguinte vai-se à farmácia e não há uma aspirina.
Também há uma qualidade e capacidade de contar histórias que muitas vezes na Euriopa se foi perdendo. A literatura europeia cada vez mais centra-se nos conflitos internos do indivíduo ou escreve-se para o mercado.

Rui Azeredo

1 Comments:

  • At 17 fevereiro, 2011 20:26, Blogger vargafti said…

    Gostaria de ter lido comentários suscitados pelo entrevistador referntes ao importante livcro "O homem que amava os cães", de L. Padura. Alguns conceitos já aparecem em Adeus, Hemingway, mas amuderecem são explicitados agora.

    Bernardo Boris
    vargafti@nethall.com.br

     

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