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terça-feira, agosto 02, 2005

Entrevista ao toureiro Mário Coelho

Toureiro conta a sua história em "…da Prata ao Ouro"

O "glamour" das touradas por Mário Coelho

O matador de touros Mário Coelho, de Vila franca de Xira, ao fim de 50 anos de actividade chegou à conclusão que tinha muitas histórias para contar, Recordações que amealhou por todo o mundo, onde se cruzou e privou com personalidades como Orson Wells, Ava Gardner ou Hemingway. Daí nasceu o livro "Mário Coelho da Prata ao Ouro" (Publicações Dom Quixote).
"Foi uma época belíssima, uma época dourada", disse, num misto de saudosismo e orgulho, sobre as temporadas de glória vividas em Portugal e no estrangeiro, especialmente nos anos 60. Como salientou, eram tempos de "bons apreciadores, profissionalismo e bom gosto".
As estrelas do cinema, da música, do jet set, ligavam-se muito aos toureiros, explicou-nos Mário Coelho, que assim teve a oportunidade de conhecer, por exemplo, o escritor Ernest Hemingway. Sobre ele disse: "Era um bom aficcionado. Julgava-se um fenómeno de conhecimento do toureio, mas não era um predestinado".
Já Orson Wells, que assistia a dez a quinze corridas por ano, era também um bom aficcionado, "mas tentava sempre aprender algo connosco". "Fez falta à Festa", lamentou-se Mario Coelho, aludindo à sua morte, lembrando que o cineasta tinha "planeado dois filmes sobre o toureio. Seria revolucionário".
Outras histórias que vêm no livro são relativas a Cantinflas, Picasso, Audrey Hepburn, Ava Gardner, entre muitos outros.
Tempos que já foram pois, como reconhece, quando se despediu havia poucos jovens que o conhecessem. "Até jovens toureiros", acrescentou. Assim, "…da Prata ao Ouro" , serve também para quem se inicia agora nas lides de toureiro: "É um documento para saberem as dificuldades".
Este distanciamento dos jovens em relação ao toureio relaciona-o com um tipo de vida diferente nos nossos dias. "Dantes havia só um canal de televisão… agora todos têm carro, vão a festas, a discotecas, interessam-se mais por roupas, pelo futebol".

Emoção e tragédia

Com o seu livro quis, através da descrição da sua vida, "dar a conhecer um espectáculo de grande emoção e tragédia". Realça que é o segundo maior espectáculo do país, logo a seguir ao futebol. "Há um milhão e 500 mil espectadores e 400 corridas por ano". Mesmo assim lamenta que as touradas, em Portugal, não tenham o estatuto que têm em Espanha: "Quando pasamos a fronteira de Badajoz é uma festa nacional"
A opção de Mário Coelho pelo toureio foi quase inevitável para quem, como ele, sempre viveu em Vila Franca de Xira. "Eu vivia em Vila Franca, que era um ‘micro-clima’. Não havia nada e passávamos os dias à espera das datas tradicionais das nossas vilas, quando havia as esperas de touros e as corridas".
Tudo isto despertou o interessse de Mário Coelho, que, contudo, alerta: "É uma carreira de agridoces". Viemos do ruim para chegar ao bom, passámos todas as dificuldades e a partir daí é o gozo das corridas quando somos consagrados". "Os aplausos a céu aberto têm muita força", reforçou.

Uma profunda
relação com o touro


Mário Coelho realça ainda a relação que há entre toureiro e touro: "É das coisas mais extraordinárias do mundo, há uma ligação profunda".
"Se picamos o touro é para o bem do próprio touro, que nos dá tudo", explicou Mário Coelho, tentando desarmar as constantes acusações de barbárie sobre os animais. E explicou: "Temos um profundo respeito por esse animal, que só sofre quando não sangra! Tem 35 litros de sangue e aumenta a pressão quando entra na arena. Ataca a cabeça, os olhos, o coração, por isso tem de haver sangria de sete por cento", justificou Mário Coelho, tentando explicar o que é feito ao touro bravo
"É uma pena que o nosso povo não se aperceba do que devemos fazer", lamentou o autor de "Mário Coelho da Prata ao Ouro".
O livro, com prefácio de Agustina Bessa-Luís, custa 18 euros e tem cerca de 150 fotografias espalhadas por 400 páginas.

Rui Azeredo

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