O Comércio do Porto

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sexta-feira, setembro 02, 2005

CRÓNICA

Durão não estava em casa


Passei há dias pela porta de Durão Barroso. O homem não estava em casa. Tinha as janelas fechadas, as portas trancadas e metade do prédio forrado com a bandeira das estrelinhas. O meu irmão, que conhece bem aquelas ruas europeias plantadas no coração de Bruxelas, mal passamos à beira da casa, acenou para o edifício: “É ali que vive o gajo. É dos portugueses mais finos que conheço. Pirou-se a tempo”.
Gajo não é propriamente uma expressão simpática para nos referirmos aos nossos emigrantes de luxo, mas rejuvenesci ao ouvi-la: de repente, estava no Bolhão, na Ribeira, na Redacção do falecido, enfim, no Porto, carago!
Ao olhar o prédio, e dezenas de outros em redor, tive a sensação estranha das decisões de gabinete. Ninguém entrava, ninguém saía, não vi o rodopio de executivos e nem uma mosca se mexia. Porém, a Europa está ali, mora ali, enterra-se ali e ali decide o futuro de todos os europeus e de todos os gajos europeus como os portugas.
Durão não estava lá me dizer “então pá, o Comércio fechou?... Esses espanhóis são lixados, são decisivos, repentinos e frios… até precisava de um espanhol para tomar algumas decisões…mas que raio, esse jornal era velhinho c’omo caraças”. Mesmo sabendo que o homem estava fora de casa, senti-o lá dentro, como todos os executivos de gravata às riscas e calças curtas. É uma gente dos diabos – omnipresente, como Deus.
Seguimos caminho, por entre túneis que se afogam e saem sempre numa esquina bilingue carregada de estrelinhas.
A determinada altura já não sabia se deveria aprender flamengo (neerlandês) ou trautear francês, ou abrir e fechar a boca em alemão - essa língua que me recorda as batatas quentes a saltitar na boca.
Apesar de tanta estrela, Bruxelas é uma cidade cinzenta. Isso deixou-me triste, mas conformado. Afinal, a Europa é cinzenta e tudo o que reluz não é ouro. Era isso que diria a Durão, se o emigrante estivesse em casa.