O Comércio do Porto

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terça-feira, setembro 13, 2005

Cinco Minutos de Leitura

Por António Sousa Pereira

Inauguração do “Americano”
A cidade do Porto foi a primeira cidade da Península a utilizar o “Americano”. Este meio de transporte colectivo era constituido por carruagens (parecedidas com as dos eléctricos, que surgiriam mais tarde) puxadas por cavalos e circulando em carris.

“O Comércio do Porto” noticiou assim a inauguração da linha entre o Porto e Matosinhos:

15 de Maio de 1872 – Inauguração oficial do caminho de ferro americano do Porto a Matosinhos: “Às 11 horas e meia da manhã, entre o estrondear festivo dos foguetes e os sons alegres da música, partiram os carros em número de cinco, conduzindo quatro os convidados, e um, o dos fumistas, a banda de Infantaria 5. O ponto de partida foi a Alfândega Nova e não a Rua dos Ingleses (Rua do Infante D. Henrique), como estava destinado, por não se julgarem suficientemente consolidadas as obras de terraplanagem entre aqueles dois pontos. Nos quatro carros que conduziam os convidados iam, além de outros, o sr. Ministro das Obras Públicas, Cardoso Avelino, que prestando justa homenagem aos beneméritos esforços da empresa, se dignou vir expressamente assistir à inauguração; empresários Tavares Basto, Melo e Faro e barão da Trovisqueira; governador civil (...), Câmara Municipal (...) engenheiros Manuel Afonso Espergueira, Chelmiki, Sousa Brandão (...), consul geral do Brasil (...), comandantes dos corpos da guarnição, directores de bancos, secretários da Associação Comercial, membros da imprensa jornalística, etc. O trajecto até Matosinhos fez-se sem o menor incidente. Na Foz, ao passar o carro em que ia o sr. Ministro das Obras Públicas, o castelo salvou, e a banda de Infantaria 5, que ia no carro dos fumistas, tocou o hino de Sua Majestade D. Luís. Ao meio dia e um quarto chegaram os convidados a Matosinhos e, apeando-se, dirigiram-se acompanhados por duas bandas (...) para a casa que naquela vila possui o sr. João José dos Reis, na qual lhes estava preparado um bem servido lanche, oferecido pela empresa. À entrada esperavam o empresário, o sr. António Tavares Basto, duas meninas vestidas de branco, cada uma das quais, em nome dos habitantes de Matosinhos e de Leça entregou aquele benemérito cavalheiro, uma coroa entrelaçada de louro e carvalho. Da que foi oferecida em nome dos habitantes de Matosinhos pendiam fitas de seda brancas, nas quais se lia: “Ao Il.mo Sr. António Tavares de Basto. Matosinhos 15 de Maio de 1872”. Da outra pendiam fitas azuis em que se lia: “ Ao Il.mo Sr. António Tavares Basto. Leça, 15 de Maio de 1872”. ... Tendo acabado o lanche às três horas, dirigiu-se o sr. Ministro das Obras Públicas, acompanhado de quase todos os convidados, à ponte, indo em seguida a Leça. Voltando dali, foi visitar o Santuário do Senhor de Matosinhos e percorreu outros sítios da povoação. As bandas que durante o lanche se tinham revezado a tocar, acompanharam também Sua Excelência nesta excursão, subindo constantemente ao ar grande número de foguetes (...). Às quatro horas e meia partiram os convidados para o Porto.
Na Foz, na passagem do carro em que vinha o sr. Ministro das Obras Públicas, o castelo salvou como à ida e a música tocou o hino do Senhor D. Luís. Dois dos carros que serviam pela primeira vez, chegaram a descarrilar as rodas dianteiras, porém este contratempo apenas causou uma demora de alguns minutos.”
O êxito dos primeiros “americanos” foi tão grande que, passado pouco tempo, surge uma outra empresa a “Companhia Carris de Ferro do Porto” cuja primeira linha vem estabelecer a ligação do Carmo à Foz, pela Boavista. E como passaram, assim, a operar na cidade duas companhias de “americanos”, a distinção entre elas fê-la o povo, de imediato, a partir da localização das respectivas sedes. Assim, a Companhia Carris, sediada na Boavista, passou a ser conhecida pela “Companhia de cima”, enquanto a mais antiga, a Companhia do Carril Americano, com sede no Ouro, foi designada de “Companhia de baixo”.