O Comércio do Porto

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segunda-feira, setembro 05, 2005

Cinco Minutos de Leitura

Por António Sousa Pereira


No Centenário da Ponte Pênsil
Um burro e quatro cartas de Camilo

Para comemorar o Centenário da Inauguração da Ponte Pênsil, organizou a Câmara Municipal do Porto, em 1943, uma exposição que foi instalada no Gabinete de História da Cidade. Inaugurada a 17 de Fevereiro, encerrou no último dia do mesmo mês com três “palestras de divulgação que foram pronunciadas pelos Snrs. Drs. Pedro Vitorino, Artur de Magalhães Basto e António Cruz, na sala de leitura do Gabinete de História da Cidade (...)”.
Da palestra do Dr. Artur de Magalhães Basto, à época Director do Arquivo Distrital do Porto e Chefe dos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Porto, dedicada à caracterização do Porto no tempo da Ponte Pênsil, extraimos a seguinte passagem:

“(...) A propósito de titulares, permitam que lhes leia quatro cartas de Camilo, que além de darem boa ideia da graça inultrapassavel do seu autor, vincam alguns traços curiosos da época da sociedade portuense em que Camilo foi a personalidade mais notável e marcada:

“Meu presado amigo: Se for capaz de ler esta carta sem se rir, está V. À prova do humorismo indígena. Os meus médicos, suspeitosos de que as minhas pernas vão paralizar, mandaram-me dar passeios a cavalo. Eu tenho um, como recordação dos bons tempos, mas já não me atrevo a montá-lo. Aconselharam-me a equitação em burro, pacífico, sem manhas nem erotismos violentos. É impossível encontrar no Minho um burro em tais condições; porque alguns, que ainda existem, são abades. Mandaram-me procurá-lo no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio académico da Mealhada e dos Fornos. Lido isto, V. Encarrega um dos seus caseiros de me comprar um jumento, nas condições terapêuticas acima referidas – burro que não exceda 6 ou 7 libras. Apalavrado que esteja, envio a V. A quantia que me designar, e o burro vem para Famalicão tomar parte das minhas contemplações bucólicas por estas montanhas. Pergunta-me agora V. Em que ponto da carta lhe cumpria rir-se? É na estouvanice de o ir distrair das suas leituras, pedindo-lhe para me comprar um burro... De V. Velho amigo e obgº, 19-3-86 – Camillo Castello Branco”.

Demorou a resposta do amigo e Camilo insistiu:

“Meu caro amigo. Vejo que é mais fácil encontrar aí e aqui uma dúzia de viscondes do que um burro regular. Talvez se desse a evolução darwinista. A gente vê passar o visconde e não vê o burro incluso. Requer-se o olho científico experimental que V. não tem nem eu. Muito lhe agradeço o resultado das suas pesquizas. Hoje deve V. receber um vale de 24$000 réis para pagar o meu companheiro de excursões e travessias por estas serras. O burro queira V. enviar-mo pela via férrea. Não vejo melhor meio de transporte, nem devemos esperar a navegação aérea, salvo se V. vir que ele, batendo as asas do génio, pode esvoaçar até aqui, como o negro melro da cantiga. V. terá a bondade de me avisar do dia em que o ilustre peregrino chega a Famalicão, para as autoridades o cumprimentarem na gare... 8-4-86 – C.C.Branco”

O amigo afinal mandou o burro; mas o animal não agradou ao destinatário:

“Meu presado amigo. Cá está o onagro. Não o posso ver, porque estou de cama com reumatismo; mas ouço-o roncar valentemente. Desde Famalicão até aqui, não obstante ter passado mal a noite, revelou fúrias lascivas, donjuanescas, a cada fêmea que encontava. Logo que chegou, investiu para dois garranos que tenho. O diabo tem dentro dele o que quer que seja do M. De V. Parece mesmo um cristão! Meu filho Nuno veio dizer-me à cama que não consentia que eu o montasse (o burro), enquanto lhe durasse a crise erótica. Assim farei, para não vítima de paixões, que me escangalharam a mim, sem ser de todo burro.., - 20-4-86 – C.C.Branco.

Voltou para Coimbra o malfadado dolípede e o amigo disse a Camilo que, em vista das manhas do onagro, só lhe poderia assegurar a mansidão duma burra cega dum olho, que exercia na sua quinta o humilde mister de tirar água de um poço; e terminou a correspondência a semelhante respeito com a cartq que segue:

“Meu presado amigo. Como suplemento às notas diplomáticas sobre o burro, salvo seja, vai esta como recibo das 5 libras, 22$500 réis. A posteridade, além de ver que fomos de boas contas, maravilhar-se-à vendo quais eram as preocupações de dois escritores assaz metafísicos. Se V. conservar esse paquiderme, e ele render o espírito em sua casa, peço-lhe que o embalsame e lhe ponha entre as orelhas a nossa correspondência. Ele fez gemer os arames do telégrafo e prometia fazer-me gemer com as costelas fracturadas. Oxalá que afinal V. não seja vítima desse burro e nunca lhe sacrifique a dedicada jumenta de olho único. “




Nota do Arquivo

A propósito daquela exposição comemorativa do Centenário da Ponte Pênsil, escreveu “O Comércio do Porto” na sua edição de 18 de Fevereiro de 1943:
“No rés-do-chão, além de um interessante e sugestivo diorama executado por José Luís Brandão, e representando a Ribeira e a Ponte Pênsil, vêem-se barcos e barcaças em miniatura, e entre êstes os tradicionais barcos rabelos. Pode admirar-se, ainda, em expressivo quadro representando a tragédia da Ponte das Barcas. No primeiro andar exibem-se numerosos desenhos, fotografias e gravuras da época. Trata-se de um documentário vasto e curioso, dando-nos sugestivos aspectos das Pontes das Barcas e Pênsil e da vida ribeirinha. E no segundo andar, completando esta notável exposição, poderemos admirar, também, uma série interminável de documentos e de publicações. São de interesse e de estudo os numerosos manuscritos referentes à época. Além de acórdãos, alvarás, autos de arrematação de barcos, documentos referentes à construção da ponte, autos de vistoria, relatos das sessões da Câmara, anúncio dos construtores, pode ver-se um documento curioso, que é a “inquirição de D. Afonso IV com a indicação de quanto rendiam para o Bispo e Cabido as barcas de passagem do rio”. Há, ainda em exposição os jornais da época: O Ocidente, A Ilustração, Jornal Universal, a Ilustração Luso-Brasileira e o Periódico dos Pobres no Pôrto, e alguns livros.”