O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

terça-feira, agosto 09, 2005

Vou embora ou, se quisermos, FECHA A RODA

Já rescindi. Vou embora. Não vou de lágrimas nos olhos, porque o ambiente aqui está mais calmo, porque está a ficar mais vazio a cada dia que passa e porque já chorei muito. Não vou olhar para as prateleiras vazias dos dossiês que tive de levar para casa, para a gaveta vazia, para o armário vazio (sim, eu ocupava muito espaço, mas também estive mais de dois anos a reivindicar umas gavetas, foi uma verdadeira guerra pela gaveta, garanto-vos).

Não vou olhar para a cadeira vazia da Patrícia Carvalho, que foi uma verdadeira companheira de armas nestes dois últimos anos em que fizemos a Câmara do Porto juntas, que foi uma verdadeira amiga nestes dias de luta em que eu precisava de alguém que estivesse aqui comigo até ao último minuto. No dia em que não esteve não aguentei, sai daqui a chorar. É verdade que depois compensou, com a tarde do ursinho. Não vou pensar nas tardes que passámos no café a discutir isto e aquilo, não vou pensar na loucura que era quando as duas começávamos a ficar enervadas com o trabalho do dia e desatávamos aos risos e aos ginchos...

Não vou olhar para a cadeira vazia da Marlene, porque a cadeira dela não está vazia. Ela ainda ali está, resistente, com aquele ar de angústia que espero que lhe passe rapidamente... E sei que ela vai estar sempre presente, sempre amiga, sempre meiga, sempre compreensiva com o meu mau feitio, sempre paciente quando decido picá-la.

Também não vou olhar para a Lígia, que ali continua - outra resistente -, porque sei que vou sempre continuar a vê-la, ao lado do Carlos, e da Mia, que teima em querer enfiar-se nas minhas carteiras enormes.

Não me vou despedir da Manela porque desatei num pranto na tarde em que ela me veio dizer "vou-me embora" e disse que já não voltava

Não me vou despedir da Bessa, com quem tive um péssimo começo que julgo que se transformou numa bela relação de cumplicidade profissional. Só lhe via os olhos, aqui de frente para mim, neste computador agora vazio, tantos eram os jornais e pastas que atafulhavam a minha secretária. Mas era quanto bastava para nos entendermos. Se ele não se lembra deste mau começo, eu conto, apesar da história ser ridícula: quando nos mudámos do sexto para o primeiro andar, ainda eu não tinha conseguido organizar as minhas tralhas no parco espaço em que fomos arrumados, ele mudou-me uma merda de uma estante de sítio, colocou o armário dele por cima do meu; no dia seguinte cheguei, não gostei, pedi para me ajudarem, pus o armário dele no chão (ridículo, eu sei); ele, acabadinho de chegar à minha secção, não gostou, lembro-me que disse qualquer coisa como "há aqui muita gente que precisa de ser mais solidária...". Espero que o tempo que trabalhámos juntos tenha servido, pelo menos, para mudares a imagem que tinhas de mim...

Também não me vou despedir da Bárbara, que já foi embora, e com quem tive outro mau começo noutras andanças (e nestas também), mas que acabou por ser uma divertida e agradável companheira do lado.

Não me vou despedir do Barroso, porque ele é um chato, nunca ouve o que eu digo, cinco minutos depois está a dizer a alguém o contrário do que eu lhe tinha dito, e, para além disso, está sempre ao telefone. Não me vou despedir do Barroso porque quando lhe faziam alguma pergunta ele respondia "pergunta à ana cristina". E eu já não podia ouvir o Barroso dizer "pergunta à ana cristina", já não suportava ter de parar o que estava a fazer para responder a quem vinha perguntar, já não aguentava a má disposição com que eu ficava por causa disto tudo. O pior de tudo é que nunca quis deixar de trabalhar com ele. O pior de tudo é que vou ter saudades. E que sei que tudo isto era fruto de uma confiança enorme que acho que não merecia.

Não me vou despedir da Ana Pereira, porque ela já se quis despedir hoje de manhã e eu não consegui, dei um xau de longe e fugi.

Não me vou despedir da Cristina Mota, porque acho que entre nós ficou quase tudo dito naquela sexta-feira de má memória, quando chorámos juntas na casa-de-banho. Foi por causa da gravidez da Cristina Mota que eu vim parar a este jornal, e só lhe posso agradecer por isso. E, um dia, seguir o exemplo da mãe dedicada e amorosa que ela é. E, talvez um dia, conseguir ter a serenidade que ela tem no olhar e no sorriso.

Não me vou despedir, porque eles já foram embora, da Dora Mota, que me aliciou a vir para aqui, falando-me de uma redacção jovem, dinâmica, verdadeiramente entusiasmante; da Natália Faria, uma verdadeira fera do jornalismo, cujos textos me deixam sempre cheia de inveja, que foi, durante dois anos, uma grande companheira do lado; do Paulo Ferreira, o primeiro chefe com quem falei, o chefe que me entrevistou e me contratou; do António Soares, director, a pessoa menos improvável para me pregar as partidas que pregou (para além da foto do presidente da junta, houve uma vez que me pediu 10 mil caracteres sobre um alpinista - para o suplemento, claro; eu levei a sério, já devia ir para aí nos 9500 letrinhas quando comecei a desesperar e ele me diz, com aquela calma "estava a brincar, carago"); do Carlos Santos, que se revelou quase um pai para mim, que desatinava comigo quando eu escrevia os casos de polícia, que me forçou a fazer um primeiro plano sobre uma viagem aos esgotos

Não me vou despedir da Jennifer, e já explico porque é que ela vem no fim. Ela não sabe, ninguém sabe, mas sempre me vi a mim mesma na Jennifer. Via o entusiasmo, a dedicação, a felicidade, o sorriso, o brilho nos olhos que fizeram parte do meu dia-a-dia nos primeiros anos do jornal. Ainda por cima a Jennifer é de Chaves, ali perto de Vila Real onde cresci. Descobri, na sexta-feira passada, que os de Chaves chamam aos de Vila Real "fecha a roda". Achei piada por ter passado 27 anos - quase 28 - da minha vida sem saber disto. Não percebi o significado, mas achei que seria uma boa forma de me despedir do jornal.

A roda fechou. Adeus. Até ao meu regresso.

Ana Cristina Gomes

ADENDA

Não me vou despedir do Paulo, porque ele é um dos motivos pelos quais - mesmo nos piores dos piores momentos - nunca me arrependi de ter ido para o Comércio. Ganhei um namorado, logo nos meus primeiros meses. Ao longo destes cinco anos, fui ganhando o maior dos amigos, um companheiro de todas as horas, de todas as dores, de todas as angústicas, de todas as tristezas, de todos os risos, de todos os dias.

13 Comments:

  • At 09 agosto, 2005 17:01, Blogger Ana Cristina Gomes said…

    Só não falei do PH, mas depois converso com ele...

     
  • At 09 agosto, 2005 17:16, Blogger Juanita said…

    Até ao meu regresso também... vou rescindir:(

     
  • At 09 agosto, 2005 17:17, Blogger António Barroso said…

    Eu nunca me vou despedir de ti. E era sim, era confiança total. Não por não querer saber dos assuntos, mas porque, melhor do que eu, tu sabias dos mesmos. Já me cruzei com gente admirável nesta nossa profissão. De enorme mérito e capacidade de trabalho. Com todo o respeito por todos e cada um dos meus amigos que são jornalistas, tu foste até hoje a melhor repórter com quem trabalhei. É só a minha opinião, um saldo de 20 anos de profissão. Vale o que vale, amiga!

     
  • At 09 agosto, 2005 17:36, Blogger Mago said…

    Ola,
    Sou um assiduo leitor de jornais, começo o dia a ler o Publico, depois passo para a bola, em suporte de papel, depois a imprensa regional aqui da Guarda, depois entro no record-Online, blog do comercio , etc.
    Raramente lia o comercio dado que no interior as pessoas vão mais com os generalistas pois são os unicos que conseguem furar alguma inercia das pessoas com os jornais.
    A ultima publicação do comercio não a perdi, apesar de nao ser leitor assiduo é um nome sonante da minha infancia. Soube através da tv que tinham um blog, todos os dias venho varias vezes ver as novas que vocês aqui escrevem. Espero que o abandono de alguns nao seja deste blog. reparem que este blog tem pouco mais de semana e meia e por dia tem quase tantos acessos como exemplares tinha o vosso Jornal. é as vantagens das tecnologias de informação, um dia os jornais passarão quase todos só por aqui. E já diz o ditado quem não pode comprar Ouro, compra prata ..."
    Um Abraço e Votos de felicidades
    http://www.trancoso.pt.vu/

     
  • At 09 agosto, 2005 18:37, Blogger bsoares said…

    Há-de haver outros começos e melhores com certeza. Foi boa a vizinhança. Vemo-nos no jantar de 5ª feira?
    Bárbara

     
  • At 09 agosto, 2005 23:44, Blogger josevinha said…

    oh garota!!!! Desculpa a seca de hoje. Mas já tenho meio dossiê de Entre-os-Rios. Nunca te disse, mas tenho um coração pequenito... e tu tás lá, mesmo que o PH morra de ciume. Bem feito para ele.

     
  • At 10 agosto, 2005 12:00, Blogger Vítor Hugo Alvarenga said…

    Até já. Boas férias

     
  • At 10 agosto, 2005 14:09, Blogger Ana Cristina Gomes said…

    lá estarei no jantar
    obrigado barroso,
    obrigado vinha
    e não, a rescisão não significa que vá deixar de escrever no blogue... agora é que isto vai começar a doer e, portanto, o melhor será escrever para esquecer...

     
  • At 10 agosto, 2005 16:02, Blogger cristina mota said…

    Oh Ana Cristina! Parabéns!
    Esse teu mau feitio foi muito complicado para mim no início, mas depois percebi que essa é uma capa para não mostrares a toda a gente como tu és verdadeiramente! Vais com certeza, ser uma boa Mãe, como és uma boa Mulher, uma boa companheira, uma Amiga... Muitas felicidades e beijinhos

     
  • At 10 agosto, 2005 17:03, Blogger Horta said…

    1 — Confesso que torci a narigueta quando constatei a falta de referência à minha pessoa nesse texto de despedida que a ANC..., perdão, a ACG escrevinhou...

    2 — Vinha, ainda te vindimo!

    3 — Como não há duas sem três, Barroso, da próxima vez peço-te o nariz emprestado, porque o teu nariz (e só o nariz) é melhor que o meu para torcer.

    P.H.

     
  • At 10 agosto, 2005 19:30, Blogger Horta said…

    Adorei a minha Adenda! :)

     
  • At 12 agosto, 2005 18:34, Blogger Marlene Silva said…

    Linda, lembro-me perfeitamente quando começaste a abrir-te e eu comecei a conhecer-te melhor... A descobrir quem é a Ana por baixo da capa... És um modelo para mim como jornalista (acho que já te disse isso), uma boa amiga e alguem com que me identifico... Como tu não te despedes de mim, eu também não o faço em relação a ti.

     
  • At 15 agosto, 2005 16:33, Blogger dora said…

    E agora te alicio a arrumares os caixotes todos para voltarmos a caber na tua casa. Porque o mais aliciante de tudo foi o comércio ter passado por nós e ter deixado tanto, tanto em caixotes a transbordar de boas recordações e momentos que vamos contar e recontar em cada encontro.
    Como o dia em que o neves ia cair da janela, em que alguem participava nos concursos "a primeira vez", em que o horta imitava o sá de tília, em que tu tentavas adivinhar as extensões da camara do porto.
    E sobre todos esse caixotes estamos nós. O comércio passou deu-nos à costa amigos e isso, apesar de tudo o que no jornal desgostei, só me dá alegrias.
    Boa sorte para ti, Condessa Gargalhina das terras de Leça e Pedras Salgadas.

     

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