O Comércio do Porto

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quarta-feira, agosto 10, 2005

Um beijo, disse ela...

A minha mãe não me disse, mas como a conheço bem, sei que anda angustiada. Fui eu quem lhe levou a má nova e ela, com o silêncio que fez, disse-me tudo. Depois, nos dias que se vão seguindo, tem perguntado como estão as coisas, sempre com um ar apreensivo, porque sabe que, directa e indirectamente, a situação atinge-me profundamente. A mim e a muitos de quem ela já ouviu falar, ou até conhece pessoalmente. A minha mãe, do topo dos seus 70 anos, olha para trás e vê como sempre sofreu pelos outros, sentindo-se sempre muito feliz por isso. E a minha mãe anda a sofrer com tudo isto, desde a primeira hora, desde o instante em que, revoltado, com maus modos (e nunca se deve falar a uma mãe com maus modos), lhe disse sobre a suspensão d'O Comércio do Porto. «E a Ana?», tem-me perguntado desde então. A minha mãe já sabe que a Ana rescindiu, que já é mais uma desempregada oficial neste preocupante país de desempregados oficiais. A minha mãe continua angunstiada e preocupada com a Ana e com os que, como a Ana, andam a sofrer com a realidade que lhes foi imposta de repente, de surpresa, mesmo. Hoje, a Ana faz anos e a minha mãe está a torcer por ela. Se pudesse, a minha mãe dava-lhe a prenda que a Ana, e todos os que estão na situação da Ana, merecem.

P.H.

PS — «Diz à Ana que lhe mando um beijo de parabéns!», foi o que a minha mãe disse.

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