O Comércio do Porto

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terça-feira, agosto 16, 2005

Ovar: Menor vítima de desavenças entre pais e avô

O menor de 9 anos, de Ovar, terá fugido para casa do avô e não quer voltar para casa dos pais, que acusam o avô de o ter sequestrado. O caso está a ser dirimido em tribunal, e é acompanhado desde há algum tempo pela Comissão de Protecção de Menores

Francisco Manuel

Os pais e o avô de um menor de 9 anos discutem em tribunal o poder paternal da criança que já disse à polícia não querer viver com os progenitores na casa recém construída no Sargaçal, Válega - Ovar. Os pais acusam o avô de ter sequestrado a criança, impedindo-a de sair de casa, enquanto o avô nega afirmando que foi o pequeno que apareceu lá em casa e se recusou a voltar para os progenitores, versão confirmada por uma fonte policial.
Este caso de “mau relacionamento entre pais e avós” está a ser acompanhado pela Comissão de Protecção de Menores”, que foi chamada a intervir a pedido da escola frequentada pelo pequeno, denunciando negligência dos pais, “nomeadamente por falta de higiene”.
A história do sequestro começou no passado dia 26 de Julho, “quando o meu filho andava a brincar de bicicleta e desapareceu”, segundo ela, levada pelo avô, Álvaro “Ferreirinha” na motorizada. Depois de ter efectuado a denúncia à PSP de Ovar, acompanhou os agentes policiais a casa do avô, seu pai, para tentar trazer o pequeno RV para casa, mas em vão. “A criança não quis acompanhar os pais”, e nestes caso a lei prevê que provisoriamente ela possa ficar à guarda da pessoa para onde pediu guarida, explicou fonte policial. o próprio tribunal emitiu um documento – a que o COMERCIODOPORTO.BLOGSPOT.COM teve acesso -atribuindo, provisoriamente, a custódia da criança ao avô, até amanhã (quarta-feira) data em que ocorrerá uma audiência onde serão ouvidas as duas partes.

Acusações mútuas de agressões

Pelo meio existem acusações mútuas de agressões entre pais e avô, que até há cerca de um mês viviam debaixo do mesmo tecto. A mãe, Carla Cunha, de 32 anos, desempregada, acusa o seu pai, Álvaro “Ferreirinha” de a agredir violentamente e a ameaçar, bem como ao marido, Manuel António Cunha, 36 anos, com uma caçadeira, precipitando a saída da casa da Ribeira para uma recém construída no Sargaçal. “O meu pai batia-nos”, começa a contar a mãe do menor - mostrando algumas marcas de violência no rosto e nas pernas - e “por isso construímos esta pequena casa para fugirmos dali”. Segundo ela os problemas eram só quando o pai (avô) “bebia uns copos”. Acusa também Álvaro Ferreirinha de obrigá-la, a ela, ao marido e ao filho a trabalhar nos campos sem nada pagar. “Obriga o RV a carregar lenha no tempo da escola”, afiança, procurando assim uma justificação para “o mau rendimento” escolar da criança a quem os professores aconselharam o recurso a um psicólogo. Numa das fichas escolares a professora responsável escreve: “Ao longo do ano, o RV, apenas se interessou pelo recreio. Pouca força de vontade, desmotivado para a aprendizagem. O ambiente familiar esteve longe de ser o melhor”. Diz ainda, “os pais não acataram a sugestão de levar o aluno ao psicólogo. A criança vive num ambiente desgastante, onde o saber ser e estar não existem: carências emocionais, culturais, sociais e cívicas…”

Histórias de alcoolismo

Por isso os professores não o passaram de ano.
No entanto Carla Cunha garante que levou RV ao seu (dela) psicólogo, que lhe terá dito, segundo ela “que ele naquela casa (do avô) não dava nada, porque estava baralhado” e por isso teriam de sair dali. Garante que após a mudança de casa RV “andava numa grande alegria”. O pai comprou-lhe um computador, espera a ligação à Internet, “por isso não lhe faltava nada, falta-lhe é sarna para se coçar”. Admite também, a mãe, que durante bastante tempo foi visitada e acompanhada por assistentes sociais.
Posição contrária tem o avô que admite ter agredido a filha com uma mangueira, mas, segundo ele, em reacção aos insultos que esta lhe dirigiu. “Chamou-me corno, filho desta e daquela”, explicou. Lembra que na altura o seu genro veio em auxilio da mulher, tentando agredi-lo com um enchada. Afirma, ainda que era a filha que por vezes “puxava de faca e foicinha” para ele.
Diz também que quem andava por vezes aos tiros de caçadeira era Carla Cunha, que “bebe muito, e comprava quatro garrafões de tinto para ele e um de branco para ela”, ao mesmo tempo que exibe um papel onde está um alegado recado do marido, dizendo-lhe que “o vinho está debaixo da cama”, mas para “não apanhar a bebedeira”.
Explica ainda que quando RV chegou a sua casa no passado dia 26 de Julho, lhe disse que “fugiu de casa”. “Deixei o meu pai ir para a fábrica, e disse à mãe que vinha dar uma volta”, terá dito o menor.
Álvaro Ferreirinha acusa também a filha de ameaçar RV, ao ponto dele ter medo de sair de casa: “Se não vieres ‘esgasso-te’ as pernas”, terá dito. Segundo ele quando a criança chegou a casa tinha a cabeça “cheia de caspão e feridas atrás das orelhas”, por isso agora quer ser ele a tomar conta de RV, a quem irá testamentar uma boa parte da sua propriedade. Apesar de tudo, garante que não guarda qualquer rancor de Carla, porque “ela não era assim, a culpa é do marido”, e até lhe disse: “Filha, és má para mim, mas a porta está sempre aberta”. Afiança, também que sempre que os pais quiserem podem ir lá ver o filho, se essa for a vontade do tribunal.