O Comércio do Porto

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quarta-feira, agosto 24, 2005

Os meus papás estrangeiros

José Vinha

Zeza Soares, 30 anos. Glória Vieira, 55 anos. Rosa Silva, 59 anos. Estas três mulheres de Abragão têm em comum a folia da dança e dos cantares tradicionais do Norte de Portugal. Fazem parte da mesma terra, do mesmo rancho de Abragão (Penafiel) e fizeram parte da mesma equipa de penafidelenses que participou no festival internacional de folclore de Bonheiden, na Flandres, entre 17 e 21 deste mês. Mas têm mais coisas em comum: são católicas e não sabem nada de nada de línguas estrangeiras, seja francês, flamengo, inglês, neerlandês ou alemão. E durante uma semana tiveram ainda algo mais em comum: foram “adoptadas” por uma mulher flamenga que as acolheu todos os dias.
Zeza é uma mulher de palmo e meio, portadora de um olhar carregado de expectativas; Glória é alta, sorriso largo e caminha firme sobre o solo; Rosa fica entre o corpo franzino de Zeza e a imponência robusta de Glória e de lenço enrodilhado na cabeça, provoca uma dança de argolas de ouro sempre que gesticula.
Mal saíram do autocarro, após 2.100 quilómetros de estrada entre Abragão e Bonheiden (Antuérpia), fitaram em redor o grupo de estrangeiros. Já sabiam que entre aquela gente havia uma pessoa com quem teriam de viver durante uma semana.
Rosa Silva pegou na bagagem e, desconfiada, encolheu os ombros. Percebia-se que a opção de ter de viver numa casa estrangeira começara a falhar. As amigas seguiam-lhe a desconfiança, o receio, mas davam ânimo umas às outras. Finalmente: “Rita…Rita…Zézá Sóarres, Glórria Vieirra, Róza Silba.. Voilá…vôtre famille….” “Ollá…” chamou uma das jovens flamengas da organização.
“É esta? É esta mulher???” interroga-se Rosa… Se os sorrisos têm cor, ali foram amarelos…A face rosada de Rosa empalideceu e Zeza, que sorri mais do que fala, encolheu os ombros. Valeu a figura pujante de Glória para dar andamento à comitiva.
Rita é uma flamenga delgada, anda na casa dos 45 anos. Habituada a receber estrangeiros, por ocasião do festival de Bonheiden, mostrou-se logo muito entusiasmada com as três mulheres de Abragão.
“O facto de estas portuguesas não saberem línguas estrangeiras não será problema. Espero que se divirtam em minha casa”, disse.
As três mulheres de Abragão lá foram. No dia seguinte, revelaram que a família de acolhimento era “muito simpática”. “Come-se bem, a Rita anda sempre a sorrir e nota-se que não quer que falte alguma coisa à gente. Nem deixa que a gente arrume a cozinha”, explicou Glória Vieira.
À medida que os dias passavam, as três mulheres de Abragão sentiam-se cada vez mais em família.
Certa manhã, Rosa Silva explicou que falavam por gestos com a estrangeira. “Ontem, fomos as quatro ao mercado. Rita é muito simpática”. “E como falam?” perguntei. “Ah, por gestos e devagarinho para ela perceber o que dizemos. É claro que a gente não sabe compreendê-la bem, mas entendemos tudo”, respondeu Rosa Silva, agora bem mais corada que no dia da recepção.
Os dias foram passando, entre cantigas e bailados, idas e voltas ao mercado e conversas de surdos debaixo de um tecto comum.
A um dia de regressarem a Portugal, as três mulheres de Abragão tinham estabelecido uma afectividade tal que já não se importavam de ficar mais uns dias em Bonheiden. Rita já era mesmo da família.
“A minha mamã é muito simpática, formidável”, dizia Glória Vieira. “Mamã??? Sim, é assim que a gente a trata”, respondeu Rosa Silva enquanto avisava a “mamã” do programa do dia seguinte: “Ritta…á..ma..nhã…oi..to..ho…ras…aqui…en..tendessss.????”
Rita sorriu. “Yap. Yap”. E fitou-me, dizendo em francês: “Estas senhoras são do melhor que há no mundo...pergunte-lhe se falta alguma coisa?!”