O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

segunda-feira, agosto 08, 2005

O meu avô

O meu avô já passou dos 80, acho até que deve estar a chegar aos 90. Lia o Comércio desde que me lembro, o que não é muito, comparado com os mais de 60 anos em que o Comércio foi o jornal diário lá de casa.

O meu avô dizia que o Comércio tinha tudo. "Tem tudo", repetia ele, a cada visita, ainda eu andava na Faculdade.

O meu avô gosta de ler jornais e é um adepto da pluralidade de opiniões. Por isso, sobretudo desde que passou a ter mais tempo livre, compra vários. Lê-os a todos, de uma ponta à outra. Sabe sempre de tudo e mais alguma coisa. Era esta leitura cruzada que o levava a dizer que o Comércio "tem tudo" - para ele, o Comércio trazia as notícias que os outros traziam e as outras que os outros não davam.

Acho que a minha entrada no Comércio foi um orgulho para ele. Qual BBC, qual Le Monde, qual El País, qual... o Comércio é que era bom. Mesmo nas alturas piores, quando eu andava menos satisfeita, ele lá me tentava convencer - o Comércio tem tudo.

Este fim-de-semana estive com ele pela primeira vez desde a suspensão do jornal. Não quis saber de nada, não perguntou nada. Não quis saber pormenores, como foi que tudo isto aconteceu. O meu avô sabe tudo. Li isto ali e aquilo acolá, e de certeza que aquilo não fecha.

Tentei-lhe explicar que, seja o que for que aconteça, nada me garante o regresso. Não adiantou - ele está convencido de que o Comércio vai reabrir, porque não se faz isto a um jornal com 151 anos, "jornal diário aqui de casa há mais de 61".

Insisti, expliquei que estou desempregada (faço anos na quarta-feira - dava jeito uma prenda choruda...). Não adianta. O meu avô está mais preocupado com o jornal do que comigo.

Ana Cristina Gomes

1 Comments:

  • At 08 agosto, 2005 19:36, Blogger Guilherme Soares said…

    O meu avô, um deles, também é leitor do COMÉRCIO desde sempre. E também acho que ele gostou muito que eu tivésse entrado para o COMÉRCIO. Na tabacaria mais perto de sua casa tinha sempre o COMÉRCIO reservado e mesmo nos últimos tempos em que a visão o começou a trair um bocado, o meu avô comprava-o todos os dias. Ainda não estive com ele depois de tudo isto e não sei como lhe vou explicar o inexplicável.

     

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