O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

sexta-feira, agosto 19, 2005

Nélson no Benfica

Nélson, ex-Boavista, 22 anos, assinou um contrato válido por cinco temporadas com o Benfica, colmatando a lacuna criada com as saídas de Alex e Miguel. Uma das vantagens de não estar vinculado a um jornal é poder fugir à objectividade a que nos vemos obrigados. Desejo as maiores felicidades ao "Netcha", como amigo, pois ele merece tudo, chegou ao topo numa subida meteórica sem nunca duvidar do seu valor. Lembro-me de o entrevistar para O COMÉRCIO DO PORTO no início da época passada, um dia depois de ter sido apresentado como jogador do Boavista. Fiquei, admito, impressionado com a sua ambição, mesmo ciente das suas enormes potencialidades, demonstradas com a camisola do Salgueiros. Ele deve permitir esta inconfidência. Depois da dita entrevista, em que Nélson começou a demonstrar vontade de singrar na SuperLiga e chegar mais além, acabámos por almoçar juntos, mesmo ali, no restaurante do Estádio do Bessa, e fiquei a conhecer melhor um homem num corpo de menino, pai extremoso, desgostoso com a distância em que se encontrava - encontra - o rebento e a família, especialmente a mãe. Pois bem, passada uma época desportiva em que, na minha opinião, nem sequer teve oportunidade de mostrar tudo o que vale, conseguiu dar mais um passo em frente na carreira, apesar do medo de Edmundo Duarte, manifestado ao nosso jornal, de o Boavista não ser o clube indicado para o seu futebol. Para trás, anos de sofrimento e trabalho árduo. Nélson, descoberto nos campeonatos de Cabo Verde, chegou a Portugal para jogar no Vilanovense, ainda júnior, começou a despontar mas, devido ao facto de, nos escalões inferiores, só poder jogar um estrangeiro, chegou a ver o seu futuro ameaçado, até ser resgatado por Edmundo Duarte. Na época seguinte, Norton de Matos deu-lhe a oportunidade de jogar na Liga de Honra, com a camisola do Salgueiros, reforçando a aposta na colocação do jogador como lateral direito, com enorme propensão atacante. Recusado o convite do FC Porto, para integrar a equipa B, Nélson acabou por rumar ao Bessa, tornando-se um dos indiscutíveis de Jaime Pacheco, apesar de o técnico ser pouco dado a virtuosismos. Pelo meio, várias vezes o seu nome surgiu na convocatória para a selecção de Cabo Verde, mas Nélson sempre preferiu manter aberta a possibilidade de representar Portugal, uma vez adquirida a nacionalidade lusa. Agora, depois de ter sido equacionada a sua transferência para o FC Porto (ndr. ao que julgo saber, foi a chegada de Co Adriaanse a ditar o fracasso dessa possibilidade, pois o técnico holandês prefere laterais com outras características), chegou ao Benfica, clube que abordou o Boavista atempadamente, definindo as bases para uma futura negociação, caso surgisse essa necessidade - conforme surgiu. Agora, e tendo como base os 1,5 milhões de euros veiculados pela imprensa, resta saber se alguém receberá a percentagem relativa à formação do jovem jogador. Nunca ficaram claras - não tive oportunidade de falar com ele depois do acidente de viação em que esteve envolvido com outros companheiros futebolistas, que o deixou extremamente abalado - as origens do jogador. Depois de uma reportagem do jornal "Record", sobre o jogador, o Clube Desportivo Palmeira, de Cabo Verde, veio a público desmentir que Nélson tivesse representado o Batuque de São Vicente, conforme referia a peça, reclamando os 10 % (neste caso, a soma ascenderia aos 150 mil euros) relativos à formação de "Netcha", como é conhecido o novo reforço do Benfica. Questões por esclarecer. De resto, desejo, pessoalmente, as maiores felicidades a um valor emergente, que admiro, esperando apenas que possam potenciar as suas qualidades, pois estas condensam-se naquele corpo de menino. Psicologicamente, nada a apontar. Nélson sempre demonstrou sobriedade emocional para representar um grande, apesar de não ter a família consigo. A terminar, esta nota: no dito almoço de amigos, disse-me que o único jogador que lhe tinha colocado dificuldades quando esteve ao serviço do Salgueiros foi, precisamente, um dos novos companheiros, Carlitos, então no Estoril. Vais levar com ele nos treinos, Netcha, mas tu és o maior.