O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

sexta-feira, agosto 05, 2005

Dias de luto

Lembro-me como se fosse ontem da minha passagem pelo Comércio. Afinal, 11 anos são alguma coisa. E nunca conheci outro jornal. Se "rompi" com a relação, em 2001 - quando entraram os caracolitos, curiosamente - isso nada teve a ver com ambição profissional mas com uma mais substancial mudança de vida que me era apontada.

Por isso, porque o passado ainda se conserva fresco na minha memória (e não é um dos problemas do nosso país a falta dela? Talvez na origem de gestos como o da suspensão da publicação esteja sobretudo isso), senti que, de certa forma, se meteram comigo. E como quem não se sente não é filho de boa gente, não podia deixar de vos transmitir a minha indignação e a minha mágoa.

Entrei para o Comércio em 1991, numa "leva" da qual a Cristina Mota era agora, salvo erro (a Florbela já tinha saído, não já?), a única e digna representante. Já então se falava na crise do jornal. Que ameaçava encerrar, que era necessária uma "remodelação" (palavra básica no glossário quoridiano do jornalista do CP), que...

No Comércio passei por algumas situações difíceis, a pior das quais a arbitrária lista negra em que um improvável administrador alfacinha fez o favor de me incluir e que, perante a nega (afinal, eu estava já no quadro), resolveu passar às retaliações. Enfim, tudo como dantes no quartel de abrantes.

Quando entrei, era director o Alberto Carvalho, do qual não tenho boas recordações. Eu era então um jovenzito de 21 anos, e o director ficava em pânico com os desmentidos que eu ia coleccionando. As pessoas passam e as instituições ficam, há quem se esqueça disso.

Depois lembro-me do Luís de Carvalho, irascível mas com grande coração.

Depois o David Pontes, o Rebelo, etc. Ao longo dos anos saltitei de secção em secção (fora o desporto e a economia, graças a Deus) até estabilizar naquela que sempre tinha ambicionado, a Cultura (apesar de tão mal tratadinha ela ser normalmente nos generalistas).

Tanta gente passou pelo Comércio! Só agora, enquanto os seus rostos desfilam por mim, me vou dando conta disso. Tantas pessoas que durante 11 anos foram para mim uma espécie de segunda família. Parece-me que ainda ouço o Norton pedir umas "linhósias" para a primeira...

É incrível, mas ainda há umas 3 semanas, não mais, fui aí rever os velhos amigos, e nada fazia prever um desfecho destes, embora não fosse novidade as vendas andarem em baixo.

Só posso solidarizar-me convosco num momento destes, e esperar que, caso o Comércio não seja reanimado (o que para mim é improvável), encontreis a melhor opção.

Um abraço forte,
            Miguel Reis Miranda