O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

quarta-feira, agosto 03, 2005

como se fosse hoje

Aproveito esta ocasião de vida para arrumar coisas e arrumar-me. E acabo de reler “um retrato próprio” de Baptista-Bastos. Não poderia passar sem partilhar convosco este pedaço. Qualquer semelhança com a realidade actual não é (mesm0) pura coincidência.
José Vinha




Um retrato próprio
Baptista-Bastos

Gastei-me neste ofício de perfilar palavras. Profissional de um tribunal de papel, tenho procurado somar a minha débil voz à grande insurreição de choros e soluços, de protestos, recriminações e blasfémias. Rateio as palavras, arrumo-as o melhor que sei e posso, desejo sempre dar-lhes direcção e sentido, tenho os olhos estragados, arranjei uma série de tiques e um número pungente de inimigos ardorosos, quando o mundo era jovem acalentei uma ideia exaltante sobre a condição humana – e ainda há criaturas imponderadas que invejam a sobrevivência triste deste triste senhor português!
Dobro os olhos para antigamente: do garoto esgalgado nada resta; do adolescente caçador de notícias sobra este homem pesado, grande bebedor e grande pecador, cujo coração sem rugas ainda freme quando uma pequena saga quotidiana se transforma em honrado corpo 8 de jornal diário. Sou disto. Pertenço a isto. Ando nisto vai em trinta anos. Isto – é um papel no rolo da máquina, frases e locuções encaminhadas, gravuras, fotos, rotativas, pregões: o pulsar de um imenso coração colectivo erigido à nobreza das colunas tipográficas.
Rei sem coroa de um reinado de letras, imperador de um império de frases, aqui, solitário mas solidário, sou eu. Perdoe-me a subtil imodéstia destas afirmações impetuosas: a utilização da primeira pessoa do singular é, tão-só, o humilde pretexto para fazer uma discreta declaração de amor aos jornais – nunca os deixarei. Sei muito bem que um jornalista é, sempre, metade de qualquer coisa à procura da outra metade. Obstinadamente, imperfeito, na vã tentativa de uma perfeição que se harmonize em fracções. Tonterias, leviandades.
O regueirão dos jornais está povoado de sonhos descomunais que cada um de nós alberga pela vida fora. Isto é uma chatice, uma inquietação, um desassossego e uma intranquilidade dilacerantes. Não é um modo de vida: é um modo de se soçobrar.
Somos trompetistas das glórias alheias, tangemos atabales à fama dos outros, veneramos deuses estranhos, somos servos de mágicas mitologias interiores e acontecem-nos as banalidades do costume: cirrose, cancro no pulmão, desmaio cardíaco, reforma de meia dúzia de contos e uma florida notícia necrológica – redigida por aquele que está à espera de vez.
É assim: o que tenho pensado e vou pensando jamais se consolidou em qualquer espécie de estonteamento – e se há ideias que rejeito, palavras que não escrevo, relações que suprimo, deixem-me assim existir: reajo por impulso, escrevo de ouvido como muitos músicos, que ignoram o solfejo, sou áspero, indelicado, colérico, rabujento.
Sucede um porém: nunca desejei converter em grandeza a consciência dos meus limites. Ando nesta batente de escrita há um ror de anos; e se de vocês mereço algum crédito, creiam-me que observei muitos passantes incómodos, convizinhei com evoluções e mudanças, vivelheci saboreando o sal grosso da ironia, mas sempre procurei expungir das minhas prosas a linguagem predatória. Além das limpeza da escrita, tive a obsessão de outras limpezas; sobretudo da limpeza do Mundo.
Não tolero muitas coisas; sobretudo não tolero a biface, o duplo, o ambíguo, sem que isto queira dizer que tenha uma perseverante tendência para a desconfiança.
Gente estranha esta, a dos jornais. Gente que viveu fora de si mesma e consumiu noites brancas na gesta pequenina de redigir notícias; de exemplificar, com a acção e o comportamento, que mesmo no opróbio , e na violência, na perseguição e no ódio, os homens podem ser livres.
Gente estranha, esta. Gente que sabe que esta coisa de escrever nos jornais custa muito mais que alguma coisa. Às vezes até se morre. Gente que diz mal uma da outra, que fomenta a quezília e estimula a intriga. Gente manhosa, maldosa, aflita, ardida, arranhada, postergada. Ah! Como eu vos amo! Como eu vos pertenço e como vocês me pertencem! Somo da mesma laia, da mesma tribo, da mesma seita.
Eh!, vocês aí, que estão a ler-me. Isto é mau, isto é péssimo, isto é absurdo, isto é inqualificável. Não é um modo de vida: é um modo de morte. Uma chatice, uma perversão, um ardil, uma fuga.
Eh!, vocês aí: juntem-se à malta.

1 Comments:

  • At 03 agosto, 2005 22:59, Blogger Sandra Santos said…

    Sinto que devo dar o meu contributo ao Comércio do Porto, por isso aqui vai.
    Sinto saudades de ouvir o som do telemóvel
    Sinto saudades de ouvir a frase "tenho de ir, não sei a que horas venho"
    tenho saudades de ver aquele brilho nos olhos, a adrenalina estampada no rosto
    Mas também sei que não será por muito tempo, pois como mulher do norte tenho fé que lá por se perder uma batalha não se perde a guerra
    como mulher e companheira de um jornalista (Francisco Manuel), tenho o dever de lutar pela mesma causa
    COMÉRCIO PARA SEMPRE.

    Sandra Santos

     

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