O Comércio do Porto

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domingo, agosto 28, 2005

Cinco Minutos de Leitura

Por António Sousa Pereira

A CATÁSTROFE DA PONTE DAS BARCAS

A propósito desta catástrofe, publicou “O Comércio do Porto”, na sua edição de 29 de Março de 1944, o seguinte texto, não assinado:
“Depois de ter forçado a resistência heróica, mas desordenada, das forças portuguesas, em que as milícias e as guerrilhas sobrelevavam as tropas de linha, o exército do marechal Soult apareceu em frente do Porto, no mês de Março de 1809. Nas extensas linhas defensivas da cidade, organizadas à pressa, com maior entusiasmo patriótico e guerreiro, que disciplina e estratégia, populares e soldados, faziam negaças ao invasor, aos soldados experimentados em inúmeras batalhas, orgulhosos do seu valor e confiantes nas suas possibilidades, comandados por chefes experimentados. Depois de alguns dias de luta ineficaz, as defesas da cidade foram batidas e as tropas de Napoleão I irromperam pelas ruas, levando diante de si os habitantes, em fuga desorientada, a procurarem refúgio na vizinha Vila Nova de Gaia. Quem não tinha caíques buscou a ponte lançada sobre barcas, a atravessar o rio, turvo e engrossado pelas chuvas. Ouvindo a tropeada dos esquadrões, lançados a galope, a aniquilar os últimos focos de resistência, a multidão empurrava-se, premia-se, alucinada, porque a soldadesca acutilava, com fúria, exasperada e sedenta de sangue.
Na corrida para a ponte, a massa humana pisava-se, mães perdiam os filhos, logo subvertidos pela torrente humana; esposas clamavam pelos maridos, em amargurada confusão. E, quando a multidão mais se aglomerava, pisando o frágil pavimento, deparou, a meio do caminho, com um boqueirão aberto, pelo qual se precipitou na água. Centenas, milhares de fugitivos foram assim tragados, levados pela corrente, a debaterem-se nos paroxismos angustiantes da asfixia e, em breve, o rio estava coalhado de cadáveres que seguiam, no fio da água, a caminho do mar.
Produziu-se assim a catástrofe da “ponte das barcas”, a vinte e nove de Março de 1809, data fatídica para a cidade. o Número exacto de mortos nunca se apurou e, por isso mesmo, fixaram-se cifras fantásticas, de muitos milhares. Faz, hoje, 135 anos, que se deu o lutuoso acontecimento, ainda agora recordado pela lápide incrustada no muro da Ribeira, no local onde existiu a ponte, piedosamente iluminada pela lâmpada votiva, e recordada, em cada ano, por ofícios religiosos, sufragando a alma dos que morreram tão tragicamente, encargo cumprido pela Irmandade das Almas, erecta na capela de S. José das Taipas, que, no dia de hoje, manda celebrar missa de sufrágio, fazendo ornamentar, com luzes e flores, a lápide comemorativa.”