O Comércio do Porto

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sábado, agosto 27, 2005

Cinco Minutos de Leitura

Por António Sousa Pereira

Os três Bairros do Porto

Júlio Dinis
(in “Uma Família Inglesa”, ed. Liv. Lello& Irmão)

“Esta nossa cidade – seja dito para aquelas pessoas, que porventura a conhecem menos – divide-se naturalmente em três regiões, distintas por fisionomias particulares.
A região oriental, a central e a ocidental.
O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o brasileiro; o ocidental, o inglês.
No primeiro predominam a loja, o balcão, o escritório, a casa de muitas janelas e extensas varandas, as crueldades arquitectónicas, a que se sujeitam velhos casarões com o intento de os modernizar; o saguão, a viela independente das posturas municipais e à absoluta disposição dos moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de polícias; as ruas em cujas esquinas estacionam galegos armados de pau e corda e as cadeirinhas com o capote clássico; as ruas ameaçadas de procissões, e as mais propensas a lama; aquelas onde mais se compra e vende; onde mais se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite: Há ainda neste bairro muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as aparências modernas que revestiu.
O bairro oriental é principalmente brasileiro, por mais procurado pelos capitalistas que recolheram da América. Predominam neste umas enormes moles graníticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de azulejo – azul, verde ou amarelo, liso ou de relevo; o telhado de beiral azul; as varandas azuis e douradas; os jardins cuja planta se descreve com termos geométricos e se mede a compasso e escala, adornados de estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro, com o nome do proprietário e a era da edificação em letras também douradas; abunda a casa com janelas góticas e portas rectangulares, e a de janelas rectangulares e portas góticas, algumas com ameias e mirante chinês. As ruas são mais sujeitas à poeira. Pelas janelas quase sempre algum capitalista ocioso.
O bairro ocidental é o inglês, por ser especialmente aí o habitat destes nossos hóspedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de roxo-terra, de cor de café, de cinzento, de preto... até de preto! – Arquitectura despretenciosa, mas elegante; janelas rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada. – Já uma manifestação de um viver mais recolhido, mais íntimo, porque o peitoril tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo de jardins assombrados de acácias, tílias e magnólias e cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas. Chaminés fumegando quase constantemente. Persianas e transparentes de fazerem desesperar curiosidades. Ninguém pelas janelas. Nas ruas encontra-se com frequência uma inglesa de cachos e um bando de crianças de cabelos louros e babeiros brancos.
Tais são nos seus principais caracteres as três regiões do Porto; sendo desnecessário acrescentar que nesta, como em qualquer outra classificação, nada há de absoluto. Desenhando o tipo específico, nem se estabelecem demarcações bem definidas, nem se recusa admitir algumas, e até numerosas excepções, hoje mais numerosas ainda do que então, em 1855. (...)”

Curiosidade
Graças ao “Comércio do Porto”

Tentados em 1895, 1915 e 1924, os movimentos de consagração à memória de Camilo Castelo Branco não conseguiram, no entanto, concretizar o propósito de lhe erguerem uma estátua. Somente por iniciativa do “O Comércio do Porto”, em 16 de Março de 1925 (no 1º Centenário do seu Nascimento), se inaugurou a “Memória” ao aludido escritor, entretanto colocada em placa ajardinada da Avenida Camilo.
No meio de uma base de dois degraus ergue-se um pedestal de granito, cortado em linhas rectas. Nele assenta o busto de Camilo, em bronze, esculpido pelo artista Henrique Moreira e fundido por Sá Lemos. (“Inventário Artístico de Portugal”; Academia Nacional de Belas-Artes; Cidade do Porto, Maria Clementina de Carvalho Quaresma).
Como esta há mais. Veremos brevemente