O Comércio do Porto

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segunda-feira, agosto 15, 2005

Cinco Minutos de Leitura

Por António Sousa Pereira

Deambulação pelo Porto, de diferentes épocas, através de textos os excertos de textos de autores consagrados, ou um modesto contributo para que o Dr. Rui Rio aprenda a Cidade do Porto e se envergonhe das malfeitorias que inflingiu à Invicta em quatro anos de gestão camarária.

Estou hoje com saudades do Porto

José Rodrigues Miguéis (1901-1980)

“A ideia foi tua, vais por tua conta e risco. Se arranjares anúncios tens a tua percentagem e as despesas. Governa-te!”

“Há num romance de Camilo (O Que Fazem Mulheres, creio) uma cena de negro humor gogoliano: um sujeito passa na rua deserta de Entre-Paredes, fumando um amargoso charuto do monopólio régio, e, num gesto raivoso de protesto, arremessa-o por cima do muro de um próximo jardim – originando assim uma intriga que não vem ao caso. Só o Porto poderia ter inspirado um tão dramático-burlesco episódio! Ah meu Camilo, meu génio gorado! Onde estamos, onde vamos nós hoje, que já não sabemos cavar as ruínas e mistérios da terra!.
Estudante-bargante, andei pelo Porto (1919-20) e arredóis em missões patriótico-republicanas: foi a do Camilo que me guiou para a Rua d´Entre-Paredes e um hotelzinho discreto, o Sul Americano, com vidro de cor nas portas e janelas, e uma sala de jantar obscura e convidativa, toalhas alvas e cheirosas de asseio, nas mesas com solitários floridos! Que longe estavamos dos hotéis quadriculados do Turismo!

Pouco depois (1922) voltei de iniciativa própria ao Porto, a preparar com o diário República um número especial sobre a primeira Feira Comercial e Industrial do Palácio de Cristal, gentil e orgulhosa gaiola de ferro e vidro ao estilo vitoriano, hoje um monstro ou cenotáfio de cimento armado. Não havia dinheiro em caixa, e o director, o nédio e reluzente Ribeiro de Carvalho, disse-me: “ A ideia foi tua, vais por tua conta e risco. Se arranjares anúncios tens a tua percentagem e as despesas. Governa-te!” Deu-me um maço de cartas de apresentação para alguns influentes do Porto, e uma para um grande moageiro da Portugal & Colónias, sua nutridora. Esse, por sua vez, carregou-me de luxuosas missivas para as mais altas personalidades do comércio e indústria da Invicta Cidade. Com isso me governei! Não sei onde fui buscar dinheiro para a passagem e a hospedagem. A dois dias da inauguração da Feira e quando todos os angariadores de anúncios de Lisboa e Porto já por lá tinham passado e colhido, era preciso ter a coragem dos meus vinte anos. Mas o Porto parecia-me o Eldorado!

Fui de novo direito a Entre-Paredes, mas agora ao Hotel Nacional que estava superlotado e me encaixou num quarto dos altos, com rede de galinheiro na janela donde pude gozar, engaiolado, a empolgante vista do famoso Côncavo do Porto. Ali passei os mais atrozes e inspirados oito dias da minha juventude. As refeições eram pantagruélicas, e eu, franzino e magrote, olhava com espanto e inveja os caixeiros-viajantes, que depois da sopa enxundiosa atrombavam dois pratos (“entradas”), e esperavam que o garçon viesse indagar: “Como quer o bife e os dois ovos a cavalo?” E o vinho, e a fruta, e o queijo e café! Nunca vi comer tanto em parte alguma.

Sozinho e angustiado, logo de manhã cedo eu largava da gaiola para correr mundo, armado de cartas que milagrosamente me abriam todas as portas. E que gente hospitaleira! Pude assim ver coisas que me deram do Porto uma noção vertiginosa – fábricas, oficinas, armazéns, jornais, tipografias, litografias, escritórios como nem a Rua do Comércio de Lisboa possuia – a Lisboa de repente pindérica e mesquinha! (É verdade que dela, como o Baltasar do meu semi-romance Idealista no Mundo Real, eu só conhecia “paredes”!) Ao cabo da visita, eu puxava do maço de contratos e explicava-me. O obsequioso cicerone franzia talvez a testa contratiado: Por que razão o não tinha eu avisado logo da minha intenção? Mas todos, gentilmente, acabavam concedendo o anúncio.

Acontecia dizerem-me que o cavalheiro em vista acabava de sair para a fábr ica de Vila Nova de Gaia, por exemplo. Chegado ali em voo raso – “Que pena! Foi agora mesmo para o escritório do Porto!” (Ou para a Foz, Cedofeita, Matosinhos...) Aqui disparo eu de novo, falcão atrás da presa cobiçada! As minhas agonias rivalizavam com as minhas digestões. Mas o carácter industrioso dos portuenses contagiava-me, e eu imaginava-me activo, empreendedor, parte daquele mundo de trabalho criador. (Era apenas estudante de Direito.) Mas foi a visita à Electro-Cerâmica do Candal (nome entre todos camiliano!) a que me encheu de pasmo: no pátio da fábrica empilhavam-se a grande altura os caixotes de mercadoria a expedir para o mundo inteiro. O quê?! Pois nós exportamos porcelanas de isolamento para a electrificada Checoslováquia?...Quem sonhara tal empreendimento no ronceiro Portugal! Sim, meu orgulho do Porto! (Infelizmente a Electro-Cerâmica não tardou em falir, com grande mágoa minha).
Uma dessas peregrinações levou-me ao escritório de um poderoso “brasseur d´affaires”, no coração da Cidade: magníficos móveis de carvalho, de fabrico local, poltronas de couro, tapetes, azulejos de encomenda – aquele luxo estonteante era também em parte meu. Assimilado! O patrão fora almoçar a casa, num bairro novo nos altos do Porto: um palacete pimpão, com algo de “manuelino”. Fiz-me anunciar pela criada em uniforme, que me mandou esperar na antessala com o seu cheiro a estuque fresco, e foi chamar o patrão. Abriu-se a porta e ele surgiu nutrido e rubicundo, tipo do “pato-bravo” do tempo. Entreguei-lhe o envelope da Moagem que ele sopesou e leu (investido!); “Ah, sim, cá está. É para mim! Espere um bocado”.

Voltou à sala de Jantar – sumptuosa, como vi de relance – e logo ouvi através da porta uma voz de mulher soletrando o texto da missiva: “O milionário não sabia ler! (Disseram-me ao tempo que ele controlava a política e a polícia do Porto democrático: boato ou verdade – pela força do dinheiro, sim, mas pela argúcia também”. Reapareceu por fim, e deu-me o anúncio pedido. (Meses depois o escândalo rebentou nos jornais: falido com fraude, o meu herói refugiara-se na Galiza – sua pátria talvez. Tive pena dele, pois sempre admirei os fortes e os vencedores..., sobretudo depois de vencidos!)

Consegui voltar a Lisboa com a pasta recheada de contratos, para espanto dos meus efémeros camaradas, que passaram dois dias e noites a gozar de me verem sozinho a braços com artigos, notícias e gravuras (que saíram todas empastadas) para um número inteiro do jornal. Terei eu embolsado nisso cento e poucos escudos?


José Rodrigues Miguéis nasceu em Lisboa, em 1901. Licenciou-se em Direito nesta cidade e, mais tarde, em Ciências Pedagógicas pela Universidade de Bruxelas. Em 1935 exilou-se nos Estados Unidos onde foi Editor Assistente das Selecções do Reader´s Digest e, posteriormente, professor universitário.
Ainda em Lisboa exerceu advocacia e o magistério dedicando-se, também, ao jornalismo: República, Seara Nova, O Globo (que dirigiu com Bento de Jesus Craça), O Diabo, entre outros.
Acompanhou as revoluções frustradas de 7 de Fevereiro de 1929 e 26 de Agosto de 1931. Fundou O Clube Operário Português. Durante a Guerra Civil de Espanha escreveu assiduamente no La Voz, semanário dos trabalhadores espanhóis exilados em Nova York.
Jorge de Sena chamou-lhe “Padre-mestre da ficção portuguesa”.