O Comércio do Porto

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terça-feira, agosto 02, 2005

Bolhão II

Já não há, praticamente, bancas de fruta no piso superior da ala Sul do Bolhão. Aos poucos, discretamente, tudo foi desmontado e as vendedoras transferiram-se para a ala Norte. A ponte que atravessa o Leste do Oeste do mercado está vazia, depois de quase uma semana de enclausuramento provocado pelas grades com placards a anunciar "Zona Perigosa". A Mariazinha das Sócias e todas as suas colegas estão do lado Norte, e apenas uma banca, no canto Sul do mercado continua aberta. A dona diz que não sai enquanto os talhos continuarem abertos. E os talhos já receiam a perda de clientes com a transferência das bancas de frutas e flores para a zona livre de grades.
No andar de baixo, funcionários da Câmara do Porto estão já a trabalhar na recuperação dos espaços vazios, que hão-de albergar alguns dos vendedores que ainda não se transferiram. Amanhã termina o prazo dado pela autarquia para que os comerciantes do piso inferior da ala Sul abandonem as suas bancas. Mas a mudança promete não ser pacífica.
Quem leu os jornais de hoje já viu que a Associação dos Amigos do Bolhão (AAB) está a organizar nova vigília com cordão humano em torno do mercado. Alcino Sousa, presidente da Associação de Comerciantes do Mercado do Bolhão e membro da AAB, diz que o início da vigília está marcado para as 19h, mas não há hora para terminar. É que, na semana passada, quando expirou o prazo dado pela autarquia para que os comerciantes do andar superior saíssem, foram colocadas grades de interdição a essa zona, durante a noite. E os comerciantes não querem arriscar ser novamente surpreendidos.
Por isso, estão a apelar à participação de todos, e pedem a cada pessoa que leve, para a vigília, uma vela. "Queremos rodear o mercado de luz", explica Alcino.
Entretanto, na tarde de ontem, a Câmara do Porto enviou um novo comunicado aos comerciantes do Bolhão, explicando todo o processo de obras e remodelação do mercado, intitulado "Um projecto para a nova Baixa". Na carta, a Câmara relembra que iniciará "a 4 de Agosto, o escoramento adicional do edifício", medida que "permitirá o regresso de todos, desde que o LNEC assuma, por escrito, que nada há a temer em termos de segurança, para vendedores e clientes".
A autarquia esclarece ainda que será lançado em Outubro um concurso público internacional "no sentido de reabilitar completamente o Bolhão", onde "obrigar-se-á os concorrentes a manter toda a arquitectura do emblemático edifício e a destinar uma parte significativa do mercado para o comércio tradicional, tal como ele hoje é ali exercido". Uma metodologia que, conclui a câmara, "permite reabilitar o mercado sem gasto de dinheiro público".
Esta tarde, os comerciantes reúnem-se novamente, devendo ser estudada uma carta aberta onde expõem algumas dúvidas sobre como todo o processo de transferências tem sido conduzido. Depois de aprovado, o documento deverá chegar, primeiro, ao presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, sendo distribuído à população, amanhã, durante a vigília nocturna.

7 Comments:

  • At 02 agosto, 2005 16:10, Blogger TAF said…

    Acabei de publicar n'A Baixa do Porto um post "politicamente incorrecto" sobre o Comércio. Devo esclarecer, contudo, que esta notícia sobre o Bolhão indicia que este blog está a entrar no rumo certo. :-)

     
  • At 02 agosto, 2005 16:34, Blogger Rui Vasco said…

    Força, pessoal do Comércio.
    Um abraço de Lisboa
    RVS

     
  • At 02 agosto, 2005 16:35, Blogger Vítor Hugo Alvarenga said…

    Meu caro TAF. Concordo com a essência da crítica, mas posso garantir que não há soluções concretas/viáveis, por esta altura, quando as houver saberão, e o segredo, como deve saber, é a alma do negócio. Ora, não estando nas nossas mãos decidir o futuro do jornal, também não nos compete, em minha opinião, discuti-lo em público. Pode continuar a contar com notícias, reportagens, entrevistas, mas também os desabafos, porque no jornalismo a criação sai do meio da confusão. Não estamos organizados? Uma criança não aprende a andar de um dia para o outro, chora, berra, tropeça, cai, mas acaba por erguer-se, e isso poderá acontecer se tivermos forças e - adivinhou - carinho...

    Um abraço

     
  • At 02 agosto, 2005 16:48, Blogger manueladlramos said…

    "histórias da cidade que não aparecem na concorrência..." nem sem ser na concorrência, como a triste história da chamada "requalificação" da Av.dos Aliados e da Praça da Liberdade. E olhem que há muito para contar e "escavar": podem começar pelos ALIADOS
    (desculpem aproveitar-me deste espaço mas não perco oportunidade para a divulgação!)

     
  • At 02 agosto, 2005 16:51, Blogger TAF said…

    Caro VHA, aqui vai mais um comentário "com carinho". :-)

    Escreveu que "Uma criança não aprende a andar de um dia para o outro". Mas não é suposto vocês JÁ SABEREM fazer um jornal?

     
  • At 02 agosto, 2005 17:39, Blogger Juanita said…

    Mas isto não é um "blog"? É certo que somos jornalistas e queremos continuar a sê-lo, mas esta foi a forma que encontrámos para continuarmos a ter voz, como jornalistas e seres humanos. As notícias vão surgindo, garanto, à medida que o pessoal vai digerindo o que nos está acontecer...

     
  • At 03 agosto, 2005 19:37, Blogger Teófilo M. said…

    Parabéns pelas notícias que mostram que ainda não é desta que O Comercio do Porto se cala.

    O Porto fica a dever-vos mais esta, vamos para a frente, pois todos juntos nunca seremos demais.

     

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