O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

segunda-feira, agosto 01, 2005

As tulipas que o meu namorado me trouxe morreram

As tulipas que o meu namorado me trouxe da Holanda morreram, perdidas na loucura que foi a última semana, esquecidas no acordar angustiado, no bater da porta apressado a caminho do jornal, no regresso tardio cada vez mais nervoso, mais triste, mais desconfiado de que as coisas não iam chegar a bom porto.
Mas até sexta-feira elas estavam bem, resistentes, verdadeiras tulipas leceiras, embora tenham vindo da Holanda.
No domingo, quando elas chegaram a minha casa, pus-lhes substrato holandês - só metade, como recomendava nas instruções (sim, é verdade, as tulipas holandesas trazem instruções) -, arranjei-lhes a melhor jarra que tinha em casa (só à terceira escolha me dei por satisfeita) e deitei-lhes água.
Segunda-feira acordei bem disposta, coisa rara nas últimas duas semanas de humor duvidoso, como se o humor estivesse mais à frente, como se adivinhasse que qualquer coisa não estava bem. Dormi pouco, mas acordei bem, reconfortada pelo regresso do namorado, que emigrou por duas semanas em trabalho. Levantei-me, tomei o pequeno-almoço, olhei consolada para as tulipas, comprometi-me a fotografá-las, para registar aquele belo ramo de tulipas, vindo da Holanda.
Terça-feira ainda me lembrei de lhes mudar a água e de as abastecer com a segunda dose de substrato, ou lá o que era. Todos os dias olhei para elas, à noite, enquanto fumava muitos cigarros para ver se conseguia acalmar e dormir. Quinta-feira à noite elas estavam bem. Sexta-feira à noite, quando cheguei a casa derrotada pela vida, elas tinham morrido. Ainda não consegui tirá-las da jarra, despedir-me, dizer adeus, enterrá-las no balde do lixo e deixá-las à porta de casa até à hora da recolha.

Ana Cristina Gomes

27 Comments:

  • At 01 agosto, 2005 16:53, Blogger TAF said…

    Cara Ana

    Enquanto aí estão sem nada para fazer, por que não tratam de tornar este blog um jornal a sério, ainda por cima quando têm a possibilidade de coordenar trabalho com uma equipa em Lisboa, d'A Capital? ;-)

     
  • At 01 agosto, 2005 17:02, Anonymous Inês said…

    Incrível! Era mesmo este o comentário que ia deixar!
    Não percebo mesmo porque é que em vez de estarem nesta purga colectiva - enjoativa para quem não vos conhece - não publicam aqui as histórias da cidade. Com tanto jornalismo de investigação que se faz nos blogues, que nem sequer estão presos pela agenda como os jornais, porque é que este grupo de jornalistas não o faz? Ou esperam que alguém acredite que vocês têm alguma coisa para dar se continuam com estas lamúrias?

     
  • At 01 agosto, 2005 17:09, Blogger Mousezinger said…

    Apoio os dois comentários acima deste. Um jornal não tem um contrato com o papel. Provavelmente existe um ciclo lógico e não evidente à primeira vista: Papel-blog-papel...

     
  • At 01 agosto, 2005 17:16, Blogger Manuela Pinto said…

    Já ouviram falar em expurgar a dor? Deixem-nos! O blog é nosso, venham comentar, mas deixem-nos escrever o que nos apetece. A liberdade de expressão existe. E, se calhar, essa terá sido uma das razões para o silêncio do COMÉRCIO. A tolerãncia também é democrática.
    Manuela Pinto

     
  • At 01 agosto, 2005 17:19, Blogger Manuela Pinto said…

    E se repararem com atenção, este blog tem notícias. Já leram o post da Patrícia Carvalho sobre o "Bolhão"?
    Fiquem bem
    Manuela Pinto

     
  • At 01 agosto, 2005 17:20, Anonymous Anónimo said…

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  • At 01 agosto, 2005 17:28, Blogger ines said…

    Tudo bem Manuela. Mas isso não é lá muito inteligente...
    Queria dar o mesmo recado no blog da Capital, mas só pode escrever quem for blogger, que não é o meu caso. Pode ser que o leiam aqui.
    E pronto, deixo-vos em paz com a vossa purga colectiva.

     
  • At 01 agosto, 2005 17:29, Blogger TAF said…

    Cara Manuela Pinto: afinal vocês querem "expurgar a dor", ou querem ter trabalho e realização profissional? ;-)

    Custa-me perceber como se pode desperdiçar uma oportunidade destas:
    1) para já, tanto quanto percebi, continuam a receber salário mas não vos dão nada para fazer;
    2) existe uma equipa exactamente nas mesmas circunstâncias em Lisboa.

    Têm todas as condições para construir agora o vosso futuro!

    Já tenho escrito sobre o assunto várias vezes n'A Baixa do Porto:
    "E agora em versão blog..."

     
  • At 01 agosto, 2005 17:30, Blogger Sónia said…

    É verdade que quando alguém sofre há sempre outro ao lado que goza com a sua dor. A mim parece-me que este blog serve para que os camaradas do COMÉRCIO expressem a sua dor e revolta, com toda a situação vivida na última semana.
    Os colegas d'A Capital estão desesperados. Contactos que estabeleci com alguns, que foram meus colegas de faculdade, me permitem dizê-lo.
    Estão em plenário com o sindicato e as negociações já começaram. Como uma colega me dizia "eles mataram esta redacção. Já não há solução a dar. Acabou."
    Sinto uma profunda amargura no coração de todos estes colegas e estando a aproximar a derradeira hora do juízo final, DEIXEM-NOS DESABAFAR! Porque o nosso trabalho tem que ser pago e quem quer saber notícias da cidade do Porto que não pense que as pode ter gratuitas. Todos prestamos um serviço à comunidade e os jornalistas não são excepção. Por isso se querem os serviços destes brilhantes profissionais paguem-lhes para tal. Tiraram-lhes o trabalho, tiraram-lhes um pedacinho do coração e agora querem-nos calar e explorar! Infelizmente é disto que Portugal vive! Em vez de apoiarem quem sempre trabalhou, mesmo em dias de fériados, natal e ano novo, para que todos os dias as notícias não faltassem nas bancas; em vez de os HOMENAGEAREM e AGRADECER pelo trabalho desempenhado ao longo de mais de um século, CRITICAM! Sim porque criticar é o melhor caminho para a ignorância. Força meus camaradas, desabafem, exprimam o que vos vai na alma, que é pra isso que este blog serve!

     
  • At 01 agosto, 2005 17:32, Blogger Manuela Pinto said…

    Aparece sempre Inês! Posso discordar da tua ideia, mas nunca me passaria pela cabeça censurá-la! O fecho, ou suspensão como alguns preferem, foi um grande choque para todos nós. Fiquem bem.
    Manuela Pinto

     
  • At 01 agosto, 2005 17:46, Blogger AM said…

    Há um tempo para o luto.
    E, depois, talvez, haverá tempo para a luta.
    Respeito o V/ luto.
    Apoiarei no que puder a V/ luta.
    Se e quando decidirem (e precisarem).

    Muita Força a Todos

    AMNM

     
  • At 01 agosto, 2005 17:50, Anonymous Anónimo said…

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  • At 01 agosto, 2005 17:55, Blogger ines said…

    Mas que sensível, ó Sónia... A crítica é construtiva.
    Para que é que chamam então O Comercio do Porto a este blog? Ou o jornal era isto que aqui lemos? Não me parece.
    Cheguei aqui porque alguém deixou um link no Substrato. Esperava jornalismo, é só isso. Vim ao engano, pronto.

     
  • At 01 agosto, 2005 17:55, Anonymous Anónimo said…

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  • At 01 agosto, 2005 18:12, Anonymous Anónimo said…

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  • At 01 agosto, 2005 18:32, Anonymous Anónimo said…

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  • At 01 agosto, 2005 19:37, Blogger Destro said…

    Porto - uma cidade em morte lenta

    Todos os dias morre um pouco do Porto! Uma morte lenta, dolorosa e envergonhada. Mas o pior é a naturalidade com que aceitamos esta perda de identidade e de protagonismo do Porto. A baixa cada vez está mais deserta, as lojas do comércio tradicional vão fechando uma a uma, o Bolhão cai pedaço a pedaço, o Comércio deixa as bancas subitamente. E no meio disto tudo a cidade mantêm a sua indiferença, o mesmo desdém de quem vira a cara quando passa por um sem-abrigo numa entrada dum prédio. Pouco a pouco a cidade vai-se esvaziando e as cortinas descem sobre o palco para anunciar a todos o fim de mais um dia negro na nossa história.
    Poderemos manter a nossa indiferença? É este o Porto que queremos para o futuro? Uma cidade subjugada e submetida, sem voz, sem auto-crítica, sem opinião?

    posted by Desterrado in opinioesdivergentes.blogspot.com

     
  • At 02 agosto, 2005 00:10, Anonymous Horta said…

    Há sempre engraçadinhos nestes cantinhos dos blogues. Engraçadinhos e cobardes, que se escondem no anonimato, provavelmente assustados com a possibilidade de alguém lhes varrer as bentas com um par de estalos. Cá por mim, e por outro lado, sei bem a quem varria as bentas nestes dias de revolta e tristeza pela suspensão de O Comércio do Porto e de A Capital. Mas isso, são contas de outros rosários...

    Paulo Horta

     
  • At 02 agosto, 2005 01:10, Blogger Ruiri said…

    Tens razão Horta. Há quem mereça levar nas bentas a sério. Eu também sei bem a quem varria os focinhos. Pode ser que um dia...

     
  • At 02 agosto, 2005 01:44, Blogger 2Air said…

    Eu acho engraçado. Já quando andamos, por exemplo, de táxi e dizemos que somos jornalistas, eles vêm logo com a ideia romântica de fama, dinheiro e viagens. Os jornalistas não são os únicos, os bailarinos e outros é igual. Pensa-se que não precisamos de comer, que não há famílias e essas coisas normais. Pensa-se que isto não é trabalho. Gostaria de ver se diriam o mesmo a um empregado fabril desempregado, do género: você faz calças tão bonitas, está desempregado mas continue a faze-las porque nós gostamos tanto.

    Miguel Ribeiro (A Bola)

     
  • At 02 agosto, 2005 03:27, Blogger Francisco said…

    Penso que os jornalistas do Comércio estão ainda muito magoados. Quem não estaria ? Mas a ideia de saltar para a frente e tentar criar uma saída, não me parece deslocada. Seria a maior vitória !

     
  • At 02 agosto, 2005 11:39, Blogger ines said…

    Pois é Miguel Ribeiro, mas nenhum potencial investidor compra jornais porque os funcionários estão muito tristes. Compra se houver potencial...
    Esta malta está triste e com a visão algo turva pela situação. Quem os lê está de fora e mais lúcido para lhes pedir que vão em frente. Que publiquem aqui notícias que mais nenhum jornal da região dê.

     
  • At 02 agosto, 2005 14:35, Blogger Mousezinger said…

    Da minha parte peço desculpa se a alguém ofendi...Até sempre!

     
  • At 02 agosto, 2005 17:17, Blogger 2Air said…

    Seu eu estivesse na situação deles, como já estive, dir-lhe-ia cara Inês: Muito bem, eu escrevo-lhe as notícias que ninguém dá e a senhora compromete-se a fazer um peditório para me pagar as contas lá de casa para que eu possa ter tempo para procurar as tais notícias de que tanto gosta em vez de andar em busca de soluções para o futuro. Combinado?

    Miguel Ribeiro (A Bola)

     
  • At 02 agosto, 2005 18:02, Blogger ines said…

    Nome do blog: ocomerciodoporto
    Descrição: "Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental."

    Caro Miguel Ribeiro: era esta a alma do jornal? Se o blog se chama Comércio do Porto, faça-se justiça ao título. Era esta a questão, que me parece já ultrapassada.

    Aqui há alguns jornalistas que já espevitaram e ainda bem. Pelo meio há funcionários, mas essa é outra conversa. Assim se distinguem uns dos outros. E aguardo a cacha prometida uns posts acima deste... Por que não continuar a trabalhar enquanto não surge solução? É melhor ficar a deprimir em casa à espera da indemnização para pagar as contas? Jornais nascem e morrem. Quantos títulos já fecharam? Onde andam os jornalistas d'O Jornal? E os da Kapa? E os do Sete? E os da Já? E os do Diário de Lisboa? Diário Popular? República? Ficaram em casa a chorar mágoas? Porque é que não fazem renascer o portuense Metro, por exemplo?
    Olhem para o caso do Independente -o que foi e o que é. Às vezes mais vale começar de novo...
    Também eu já passei pelo fecho de uma revista, gravidíssima e sensível. E quem daria emprego a uma grávida? E não é que consegui? Pois...

     
  • At 02 agosto, 2005 21:38, Blogger Ana Cristina Gomes said…

    Estou a gostar a vossa conversa, mas continuo sem perceber o que raio têm as minhas tulipas a ver com isto...

     
  • At 03 agosto, 2005 11:21, Blogger ines said…

    Nada, Ana... Na altura era o primeiro post da página! Bom dia!

     

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