O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

quarta-feira, agosto 03, 2005

As palavras que nunca vos direi

Hoje acordei com uma enorme necessidade de escrever. É como se, num qualquer sonho perdido do qual me lembro apenas de alguns esquissos sem sentido e figuras disformes, uma voz interior me colocasse uma caneta e um papel imaginário na mão, à espera que, como que por magia, as linhas se começassem a desenhar.
Acordei há uma hora. Nenhuma linha nasceu. Sabe quem me conhece, ainda que há poucos meses, que os meus textos demoram sempre a arrancar. Por um lado, porque não percebo metade do que escrevo no meu bloco de notas :-D (mas isso não interessa para aqui); por outro, porque tento sempre arranjar um qualquer arranque original, capaz de introduzir o texto de uma forma cativante. Chamem-me pouco objectivo (jornalisticamente falando), chamem-me pseudo-escritor, chamem-me egoísta até, chamem-me o que quiserem, mas para mim há muito tempo que o "quem fez o quê onde, quando, como e porquê" não passa de um trâmite académico. O mesmo que, convertido em dogma inquestionável, tiraniza aquilo que cada um de nós tem a uma qualquer personalidade comum que, pese embora facilite a leitura à ideia também generalizada que temos do leitor, tem esse fantástico poder de me provocar um bocejo na alma. Mas hoje o arranque original não me sai. "Ser diferente" soa até a balela verborreica pré-adolescente, à medida que este estranho aperto me começa a agoniar mais e mais, levando com ele uma inspiração que se perde no bater do relógio. Desisto (hoje era um bom dia para me aturarem, Bessa e Barroso!).
Hoje só quero ser igual aos outros com que me cruzei neste tempo – tão pouco -. Ser igual ao Barroso, apesar de andar a "sacar" Shakira (o que tu fazes por mulheres!) da Internet e dos seus ataques "pavónicos" de fúria arremessados ao Neves ou ao Vaz Mendes. Ser igual ao Bessa, apesar do bigode torcido a um adjectivo a mais. Ser igual à Patrícia, apesar do olhar crítico que parece sempre lançar às minhas peças. Ser igual ao Vinha, apesar do seu orgulho penafidelense (!!). Ser igual à Ana Trocado Marques, apesar do bater constantemente irritado no teclado (por alguma coisa, está todo estragado!), à medida que um "tetris macintoshico" invade o acrã. Ser igual à Marlene, apesar da sua fixação por gatos assassinos. Ser igual ao Pontes, apesar de sentir que ele nunca me está a ouvir. Ser igual ao Pedro, ao Alvarenga e ao Sérgio, apesar do seu incompreensível gosto pelo FCP. Ser igual à Maria João, apesar do seu ainda mais incompreensível gosto pelo (brrrr…) Benfica. Ser igual à Cristina Mota, apesar do seu orgulho de mãe implicar várias conversas ao almoço a falar de fraldas e noites mal dormidas (:-D). Ser igual ao Maurício apesar de tratar toda a gente por "você". Ser igual à Ana Pereira apesar de dizer que a culpa é sempre minha. Ser igual à Jennifer apesar de me chamar qualquer coisa de que não me lembro agora (totó??). Ser igual à Manela Pinto, apesar das gargalhadas ao meu ouvido, enquanto que mologiza a sua conversa com a comissária da PSP! Ser igual ao Rémulo, apesar do nome…Ser igual ao Fontes, apesar do seu desamor por estagiários (já não sou há dois meses, barba negra!). Ser igual à Claúdia, apesar do sotaque (!). Ser igual ao Jorga, apesar de ele frequentar uma clínica psiquiátrica (a nossa amiga estagiária há-de voltar para ti, prometo). Ser igual ao Ferrari, apesar de, quando olho para a estrada, não ver mais do que o meu pobre coitado peugeot 205 (Roger Rally para os amigos…). Ser igual ao Luís CC apesar de ele andar sempre na sombra (como eu te percebo…). Ser igual, afinal, a todos os outros que passar comigo os últimos 5 meses, muitas vezes apesar de nem uma palavra ter sido trocada entre nós e algumas vezes… apesar de tudo…
E é quando penso em cada um de vós que a agonia cresce mais. Porque sei que muito ficou por dizer, que muito ficou por fazer e sentir (é doloroso olhar para os posts deste blog e sentir que pareço ter passado indiferente. Falta de tempo…) e porque sei que no tempo que perdi a alimentar o meu sonho de ser diferente, esqueci-me muitas vezes de aprender com vocês todos. Aprender com o Barroso a "ir a todas" de frente. Aprender com o Bessa a ser ponderado. Aprender com a Patrícia a amar o jornalismo. Aprender com o Vinha a ver tudo de forma mais simples. Aprender com a Ana Trocado a falar com a alma (mesmo que as consequências possam não ser as melhores). Aprender com a Marlene a sorrir. Aprender com o Pedro, o Sérgio, o Humberto ou o Alvarenga que uma amizade pode estar ao curto alcance de um jogo de futebol e de uma noite bem passada. Aprender com a Maria João a tratar carinhosamente os "milhafres" ainda que eu não passe de um "leãozinho". Aprender com a Cristina Mota a ternura com que ela olha para as fotos dos filhos. Aprender com a Ana Pereira a usar o sarcasmo de forma perfeita. Aprender com a Jennifer a dizer a palavra certa na hora certa. Aprender com a Manela Pinto a fazer bolos e a pôr em ordem a polícia (:-D). Aprender com o Maurício a libertar a imaginação (isso nunca me vão tirar!). Aprender com todos os fotógrafos (desculpem mas o texto já vai longo) a lançar um olhar curioso para lá do meu mundo.
Acordei há duas horas e prometo que da próxima vez que me ouvirem não será assim. Provavelmente estarei calado como de costume, enterrado numa montanha de papéis com caligrafia inenarrável, a tentar fazer um qualquer biscate (intercalado com uma busca de emprego nos jornais…). Talvez da próxima já me tenha esquecido de muitos de vocês e vocês que ainda se lembram do meu nome me tenham esquecido a mim. Porém, e enquanto isso não acontecer (e espero que nunca venha acontecer), peço desculpa pela incapacidade da minha caneta imaginária para um final mais inspirado, mas que se lixe … força a todos e obrigado porque, quer se lembrem de mim ou não, me voltaram a fazer acreditar…

P.S_ Não vamos querer dar razão aos nossos fantásticos críticos que, instalados na sua cómoda cadeira, se entretêm a vociferar a sua diferença contra os pobres jornalistas do COMÉRCIO que, três dias depois de lhes cair uma bomba em cima, deveriam obviamente estar a escrever muitas coisas. Ainda para mais, a maioria que, como eu estamos a recibos verdes e vamos sair daqui riquíssimos. Da minha parte, quando eu ganhar o pullitzer (vais estar na lista de dedicatórias, barrosão), falamos. Até lá (críticos) divirtam-se, espero que nunca vos venha a acontecer nada igual.

Tiago J. Reis

9 Comments:

  • At 03 agosto, 2005 15:19, Blogger Patricia Carvalho said…

    Caso ainda não tenhas reparado, caramelo, eu só me dou ao trabalho de criticar quem vale a pena, capice? Vai em frente que já aprendeste quase tudo.

     
  • At 03 agosto, 2005 15:33, Blogger cristina mota said…

    vês como com um pouquinho de todos nós podes aprender muito? Felicidades. Ainda tens um grande futuro à tua frente e vais, com certeza, aprender mt mais.

     
  • At 03 agosto, 2005 16:35, Blogger Juanita said…

    repito o que já te disse: é impossível esquecer um lagartinho tão castiço;)

     
  • At 03 agosto, 2005 18:05, Blogger Guilherme Soares said…

    Boa, Tiago. Concordo contigo em relação a essa dos cânones académicos. Discordo deles, portanto, designadamente quando deles se faz dogma, como dizes.

    Abraço leonino

     
  • At 03 agosto, 2005 18:22, Blogger Ana Cristina Gomes said…

    Registo que não tenhas dito nada de mim, também companheira de secção. Espero que seja apenas por causa do meu mau feitio...

     
  • At 03 agosto, 2005 22:28, Blogger miguel said…

    Grande, grande, grande texto. Literalmente e não só...

     
  • At 04 agosto, 2005 12:30, Blogger António Barroso said…

    Tu vais longe. E se não for o pullitzer, sei que um dia te hei-de visitar numa redacção apetrechada com tecnologia estilo Minority Report. Então aí serás tu a explicar-me como a coisa se faz e eu a gozar um orgulho vaidoso por saber que esse momento ia acontecer. És grande, não baixes a cabeça nunca!

     
  • At 04 agosto, 2005 20:47, Blogger Marlene Silva said…

    Em ti admiro o facto de seres tu próprio, sobretudo na maneira como escreves... Continua a sê-lo. Eu continuarei a sorrir...

     
  • At 08 agosto, 2005 19:02, Blogger Joao said…

    Um belissímo texto e com grande perspicácia. Apesar de durante os quatro anos de curso, nunca termos convivido grande coisa, aquilo que pensava confirmou-se: temos um grande jornalista. E não por este texto, mas pelo trabalho que acompanhei nestes teus meses de Comércio.
    Continuo a acreditar, e a querer acreditar que os bons se safam sempre. E tu estás neste lote. Portanto não dúvido que o pullitzer será teu um dia.
    Em relação ao jornal não tenho nada a dizer, porque acho que em situações limites se deve evitar os pseudo-sentimentalismos.

    Abraço

     

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