O Comércio do Porto

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sexta-feira, agosto 05, 2005

Ardeu perto de mim

A minha casa esteve ontem cercada pelo fogo. Sem mim. Passei parte da tarde numa loja à espera que o último exemplar do COMERCIO fosse emoldurado.
A meio da tarde regressei a casa, trazendo debaixo do sovaco a múmia de papel que preguei à martelada na parede do meu escritório, para mais tarde recordar.
A recepção não poderia ter sido melhor: carros de bombeiros numa gritaria infernal, vizinhos em pânico, gente carregada com botijas de gás a invadir o meu quintal e enormes nuvens de fumo a anunciar a chegada de labaredas enormes a galgar terras e matos.
Ainda vi a crista das chamas, por detrás de uma oficina desactivada defronte da janela do meu escritório – está desactivada e entregue ao Tribunal, mas guarda lá dentro dezenas de bidões de óleo e outras substâncias gordurosas e inflamáveis. As agulhetas foram todas apontadas para aí. Se as chamas lá caíssem, seria o fim do mundo e a minha casa não escaparia ao fogo, apesar de haver uma estrada nacional a dividir os dois imóveis.
Em redor, as casas salpicadas de faúlhas começaram a ser despidas pelos moradores: móveis, objectos de estimação, animais e quinquilharias diversas foram atiradas para o meio da rua, do lado de cá da fronteira do lume.
Um dos meus vizinhos não conseguiu salvar os cães de caça que morreram esturricados. Nem os coelhos, assados vivos. Nem as galinhas, tontas e bêbadas com tanto fumo. Nem as uvas, que se queimaram. Nem a passarada que até ontem chilreava na gaiola colectiva.
O fogo vencia os bombeiros. Ainda assisti, atónito, à luta desigual. Tive medo, apesar de a minha casa estar na retaguarda do batalhão de bombeiros, que se alojou à minha porta.
Uma vizinha irrompeu pela minha casa adentro, aos gritos. Com mais dois filhos, menores. Carregavam cadeiras, mesas e botijas de gás. Pediram-me água e abrigo, enquanto a fúria do fogo não abrandasse.
Além de janelas partidas, portas arrebentadas, as chamas não conseguiram lamber as casas em redor da minha, graças à tenacidade dos bombeiros e da teimosia dos moradores. Gente mais brava que eu, que acabara de chegar com o cadáver embalsamado do último exemplar do COMERCIO DO PORTO. Ontem, Penafiel sofreu um dos piores dias do ano com fogo e fumo por todo lado. Hoje ainda continua a arder, mas longe de minha casa.

4 Comments:

  • At 05 agosto, 2005 15:47, Blogger SusanaRibeiro said…

    E foi isto que perdemos desde que foste para editor caro José!
    Um grande repórter para um grande drama. Hoje ao ver o noticiário, apeteceu-me largar esta merda toda e ir atirar baldes de água junto dos "desgraçados" que lutam pelas coisas que conseguiram juntar durante uma vida. Basicamente... fazer qualquer coisa de útil, o que já não me sinto a fazer desde há uma semana :(

     
  • At 05 agosto, 2005 15:53, Blogger Ivone Marques said…

    E o teu tio simpático, não diz nada?

     
  • At 05 agosto, 2005 16:46, Blogger josevinha said…

    gajas!!!! oh Deus, que gajas fixes!

     
  • At 06 agosto, 2005 12:26, Blogger Francisco Manuel said…

    Que dizer? É o Camarada José Vinha no seu melhor.

     

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