O Comércio do Porto

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quarta-feira, agosto 10, 2005

APETECE ESCREVER

Quem seguir para Norte, sentirá o pescoço perro, colado à direita, percorridos cerca de 32 quilómetros na auto-estrada A4 Porto-Vila Real. A cidade é um presépio sobranceiro ao Vale do Sousa. Pode parecer feitiço, mas não é. É atracção. Mas se for bruxaria é das boas.
A terra chama os forasteiros. Atrai-os. Cola-os ao chão. E se alguém beber água da Fonte do Carvalho ou comer pão do Pego ficará a correr-o-fado. Nunca mais levanta ferros deste porto que me adoptou à custa da Revolução dos Cravos, nascido e tirado a ferros pelas mãos do pai, nas “terras do fim do mundo” em Angola.
Já lá vão uns carros de anos que por aqui armei tenda em Penafiel, tanta tenda que até levei uma moçoila ao altar da Senhora da Piedade. Ao lado da Senhora, o S. Bartolomeu, com o diabo preso por uma coleira, olhou-me desconfiado. Ele sabia bem que eu nunca fui muito honrado nas juras de amor, mas raio, aquela ocasião era o início de uma nova caminhada.
Daí para cá, sei de cor-e-salteado o número de pedras de granito que botaram no chão entre a minha casa e o santuário da Senhora da Piedade. E se fosse um crente ajeitado, desses convictos das bênçãos celestiais, estaria hoje alistado na legião dos homens crentes da vida além da vida. Mas não.
Não sei por que carga de vinho, tirei outros cursos: no “Domingos do 33”, licenciei-me nas comezainas do “Sapo” e discuto política barata no “Sousa”. Mas à mistura – mesmo que a mistura faça mal ao papo – ralho imenso com os enormes que dizem que o COMÉRCIO era um jornal dos fraquinhos. Às vezes de tanto ralhar, nem me lembro que a patanisca arrefece no prato, ou a posta de bacalhau fica mais tesa que a minha convicção de advogado do diabo.
Dentro dias, a 24 do corrente, haverá festa brava cá na Província. Na véspera, o S. Bartolomeu vai soltar-se o diabo, como manda a tradição. À minha porta, as vendedoras de cebola inundarão a Avenida Gaspar Baltar e os peritos em melão-casca-de-carvalho vão tentar meter-me a faca na algibeira. Esse melão, para ser dos meus, terá de picar na boca e bufar na hora do espeto. Até acho que é feminino, porque mulher que não bufa, não tem sangue na guelra.
Mas haverá mais ilusão: propagandistas de pomadas contra reumatismo; vendedores de cobertores, de botas e de mau-feitio; e até o simpático vendedor de facas – gago como o susto – haverá de me despertar às seis da manhã com o megafone dos preços baixos.
A diferença, agora, é que já não me deito à hora da padeira. Tornei-me, pela primeira vez na minha vida, um marido às direitas. Deito-me cedo, ergo-me cedo, falo com o “scott” (o cachorro mais burro que conheço), discuto com o garnisé e digo bom dia à vizinhança.
O meu filho faz hoje (10 de Agosto) 14 anos. Anda radiante da vida. Ele e a irmã. O pai está cá em casa. Abençoado desemprego.

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