O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

domingo, julho 31, 2005

Quando cheguei ao COMÉRCIO

Quando cheguei ao COMÉRCIO, sabia muito pouco desta vida de trabalhar em jornais. Podia ter ido para outro sítio, escolhi este não sei bem porquê, talvez fosse simpatia por tê-lo tido sempre na mesa da minha sala. Já lhe tinha dito que não por duas vezes, a primeira porque tinha emprego, a segunda porque me queriam recambiar para a minha terra, como correspondente, e eu já não conseguia resistir ao bulício de uma redacção.
Quando cheguei ao COMÉRCIO, sonhava trabalhar num jornal grande, de projecção nacional, sonhava que todos me lessem de uma ponta à outra do país, sonhava poder escrever irresistíveis grandes reportagens.
Quando cheguei ao COMÉRCIO, trabalhei mais de uma semana sem folgar, foi preciso pedir por favor, só um dia, só para descansar. Neste dia não dava, no outro não pode ser, pronto, só mais amanhã, vais à Câmara que não temos ninguém para mandar, escreves o que tens a escrever e vais à tua vida, é um instantinho, vais ver. Nesse dia de Julho de 2000, entrei pela primeira vez na Câmara do Porto, mal sabia que, cinco anos depois, já não ia ser possível fazer as contas às vezes que lá fui. Mal sabia que, pouco mais de cinco anos depois, ia deixar de poder lá ir, pelo menos em serviço, pelo menos ao serviço do COMÉRCIO.
Passei o Verão nos incêndios, não havia dia que não saísse da redacção para me enfiar nas florestas que, cinco anos depois, continuam a arder. Todos os dias regressava a casa a cheirar a fumo, houve um dia em que regressei encharcada, um helicóptero com falta de pontaria despejou a água no sítio errado.
Andei nos túneis que existem por baixo da cidade do Porto, escrevi duas páginas sobre isso sem saber como. Estava nas Fontainhas no dia da derrocada, era Dezembro do Inverno mais chuvoso de sempre. Fui parar ao jornal em dia de folga quando caiu a ponte de Entre-os-Rios, estávamos lá todos para fazer uma segunda edição, não foi preciso ninguém pedir.
Não foi preciso muito para perceber que estava num grande jornal, para perceber que já não queria ir para outro lado, queria ficar ali, a dar o litro, a dar couro e cabelo, cabeça, coração, tudo.

Ana Cristina Gomes

2 Comments:

  • At 31 julho, 2005 23:44, Anonymous Manuel Sousa said…

    Pior do que levar um banho do helicópetro da combate a incêndio é saber que O COMERCIO nos deixou. Sinto muita tristeza saber que não o poderei desfolhar. Tento imaginar o sentimento de todos os profissionais, mas não faço a minima ideia do que estão a sentir. Trabalhar num diário que se dedica exclusivamente à informação regional é duro e exige muita imaginação. Sou jornalista regional, também sinto adrenalina quando faço um trabalho em que por pequeno que seja exige paciência, dedicação e trabalho, também sinto a ansiedade quando a edição sai para venda.
    Espero que um dia O COMERCIO saia à rua ao nosso encontro e que este tempo encerrado não tenha passado de umas férias.

     
  • At 01 agosto, 2005 09:26, Blogger AM said…

    Meus amigos

    Um grande abraço de solidariedade.

    Até sempre.

    António Moreira

     

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