O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

domingo, julho 31, 2005

Ontem acordei a chorar

Ontem acordei a chorar. Solucei, chorei, chorei, desesperei-me. Nunca chorei assim, acordada finalmente do pesadelo que foi a última semana. Nunca chorei assim, nem quando o meu pai morreu. O telemóvel não parava de apitar, dando-me conta de mensagens enviadas e telefonemas feitos enquanto dormia. "És o nosso rosto no JN", "És a capa do Público", escreveu-me uma amiga, colega do lado na redacção que agora vamos ter de abandonar. Outra amiga, ex-colega do outro lado da secretária, ligou-me. Nem me lembro do que lhe disse, já não sei que dor era aquela, acabámos as duas a chorar. Corri para o quiosque, pouco faltava para a uma da tarde, já não devia haver jornais. Entrei de olhos vermelhos, fiquei desolada ao olhar para a banca vazia. "Tenho aqui uma coisa para si", sossegou-me logo a dona Helena, antes que eu tivesse tempo de dizer alguma coisa. Ali estavam as edições do Público, do JN, do COMÉRCIO, postas de parte, à minha espera. O marido no hospital, o quiosque sem clientes, e a dona Helena à minha espera, farta de me ligar, até pôs uma vizinha à minha procura. O marido no hospital e a preocupação foi dar-me umas palavras, pedir-me para ter força, ela que ainda nesta última semana teve a preocupação de me sugerir uma reportagem. Tive de lhe dizer que não estava bem, que passava por lá quando estivesse com outra disposição, que se calhar o jornal ia fechar. A ideia era boa, mas o jornal fechou mesmo, cortou-me as letras que ali escrevi durante cinco anos.

Ana Cristina Gomes

5 Comments:

  • At 31 julho, 2005 13:49, Blogger José Carlos Gomes said…

    ... E eu ontem deitei-me a chorar, com a última edição do COMÉRCIO nas mãos. Estive a embebedar-me até amanhacer e até haver jornais numa estação de serviço. Apesar de, certamente, não ter sofrido tanto como a maior parte da malta, porque ia pouco à redacção e só trabalhava para o COMÉRCIO há um ano e nove meses, senti muito este golpe. O ambiente que aí encontrei sempre foi excelente e a qualidade do trabalho colectivo orgulha-nos a todos.
    Força, camaradas!

     
  • At 31 julho, 2005 17:24, Anonymous Sandra Costa said…

    Só para que conste, esta é a segunda vez que escrevo para um blog. Sou pouco dada as estas coisas, confesso. Mas agora, ao ler-te, não resisti. Nem a escrever-te nem mesmo a deixar cair uma lágrima furtiva, como há muito quem diga para estas bandas, meio clandestina, admito, porque quem me conhece bem até chama pedra de gelo. Custou-me que ontem fosses a capa do meu jornal - foi muito mais agradável ter-te nas nossa páginas quando ganhaste um prémio de jornalismo. Mas, estou certa, ainda hás-de repetir a proeza. Enquanto não puderes voltar a escrever para o país, manda letras para o ciberespaço. Sempre que puder, vou ler-te. E, mesmo que te custe, mesmo que deixes cair lágrimas, passa sempre na dona Helena. Ela, de certeza, vai continuar a sugerir-te reportagens. E tu hás-de escrevê-las bem, como sempre fizeste.

     
  • At 31 julho, 2005 19:53, Anonymous Anónimo said…

    Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

     
  • At 01 agosto, 2005 09:27, Blogger AM said…

    Meus amigos

    Um grande abraço de solidariedade.

    Até sempre.

    António Moreira

     
  • At 01 agosto, 2005 15:55, Anonymous Ana said…

    Realmente na tua cara estava estampado o vosso desalento...
    Haja esperança e muita vontade!!

     

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