O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

domingo, julho 31, 2005

Até logo

Quem me conhece e me ouviu falar sobre o Comércio sabe que eu repeti mil vezes que estava cansada e queria sair. Não vale a pena, agora que acabou, dizer que não foi assim. Era verdade. Eu queria sair, mas por escolha minha, por uma outra oportunidade, não porque o jornal ia deixar de existir. Assim, não. E nunca assim porque o Comércio deu tantas coisas boas a tanta gente, e tem, certamente, ainda tanto para dar, que não é justo cortarem-lhe as pernas desta maneira. Pelos outros não posso falar. Como já disseram neste blogue, todos os jornalistas da cidade passaram pelo velho Comércio e cada um saberá o que ele lhes deu, mas a mim, deu muita coisa. Tanta, tanta, que nos tempos piores (que os houve, e muitos) até custava a acreditar que tivesse sido possível. Não vale a pena falar dos últimos (quase) dois anos, com a ironia na hora certa do Bessa e a energia acumulada do Barroso a fazerem-nos andar de roda e a rir e a trabalhar, muitas vezes, com um gosto imenso. Eles e os colegas de secção sabem o que rimos, choramos, berramos e nos desesperamos uns com os outros. Mas foi bom. Se não tivesse ganho vontade para recomeçar, sei que não teria voltado a escrever com o gosto que senti tantas vezes nos últimos tempos. Mas se eles não estivessem lá para ajudar, aturar, ouvir e mudar quando era preciso, não teria sido tão fácil. Ainda assim, quando me lembrar do Comércio, daqui para a frente, sei que vou lembrar-me muito mais dos primeiros anos - como já agora acontecia tantas vezes, quase como se já falasse de um outro jornal... A Marlene aturou-nos algumas horas com as recordações dos primeiros tempos em que tudo parecia perfeito. Toda a gente merecia ter o começo que eu tive. Rodeada de pessoas em quem acreditava, com quem sentia que aprendia um bocadinho todos os dias. Em que o cansaço nunca importava, porque o jornal tinha de sair e parecia sempre maravilhoso no dia seguinte. Nunca me poderei esquecer dos dias de Timor, quando chegava ao jornal às 10h00 para apanhar as primeiras notícias do Alfredo do outro lado do mundo, e ficava por lá até à noitinha, quando o David me chamava e a outras colegas para dizermos o que achávamos da escolha da foto para a primeira página. Não posso esquecer quando o Paulo ligava para subir ao 7º andar para fazer legendas, na paginação, cortar um texto, ou fazer um gráfico com o Pipa. E a trabalheira que dava fazer aqueles gráficos, que saíam sem qualquer sinal do nosso esforço. Mas não fazia mal, porque o jornal parecia sempre fantástico. E as noites a ouvir (nunca é de mais ouvi-lo) o António, com os pés em cima da secretária, enquanto fazíamos horas para o jornal fechar. E a loucura do Carlos que trouxe tantas gargalhadas quando mais precisávamos. Não se pode esquecer os dias em que entrava no carro do jornal às 8h00 para ir fazer uma reportagema cascos de rolha e voltava, para a escrever no mesmo dia. Ou o pesadelo de acompanhar, hora após hora a tragédia de Entre-os-Rios. Nem a forma como arregalávamos os olhos quando nos pediam, às 17h00, para fazer um primeiro plano saído do nada. Mas fazíamos. E no dia seguinte parecia sempre tão bem... E como poderia varrer da memória os suplementos, lençóis de caracteres nem sempre planeados e escritos, muitas vezes, a desoras. E que importava? Era uma época de deslumbramento como jamais terei outra. Repito: toda a gente merecia ter um começo assim. Eu tive a sorte de o ter no Comércio. E, mesmo que o último ano não tivesse valido a pena (e valeu, apesar de toda a minha resmunguice), só isso chegaria para nunca esquecer. E eu nunca esquecerei.

3 Comments:

  • At 01 agosto, 2005 09:30, Blogger AM said…

    Meus amigos

    Um grande abraço de solidariedade.

    Até sempre.

    António Moreira

     
  • At 01 agosto, 2005 12:41, Anonymous Anónimo said…

    o "Comércio" deverá dizer sempre "até logo!", pronto para denunciar todas as situações aberrantes, como a que relato:



    ARGUMENTOS POUCO SÉRIOS

    O mês de Junho de 2005 fica marcada pela aparição à venda de mais um livro sobre a Questão de Olivença. O seu título é "Olivenza, las razones de España", e o seu autor é Luis Alfonso Limpo Píriz, bibliotecário na localidade.
    Trata-se de um livro favorável aos argumentos de Madrid, que pedirá uma análise cuidada, impossível de concretizar para já. Todavia, o livro apresenta um prólogo/introdução de quatro páginas, assinadas por um intelectual de relevância, de nome Juan García Gutiérrez (JGG). Neste texto, há algumas afirmações de imediato polémicas e pouco consistentes, que merecem alguns reparos.
    Lê-se (páginas 14 e 15) no mesmo, e traduzindo, "...nesse longo período de História que vai do Tratado de Alcañices (1297) ao de Badajoz (1801), Olivença não esteve de forma ininterrupta sob domínio português; desde 1580 com Filipe II até 1640 com o neto deste, Filipe IV, foi Portugal inteiro que esteve debaixo de domínio espanhol; e ainda foi ocasionalmente que Olivença foi retomada depois da segunda dessas datas, quando em 1658 um destacamento vindo de Badajoz a voltou a ocupar, ainda que por pouco tempo. O ocaso dos Áustrias com Carlos II fez com que a praça voltasse a mãos portuguesas, até à sua definitiva incorporação em Espanha pelo Tratado de Badajoz."
    Há que interromper aqui a transcrição, e fazer desde já alguns comentários. JGG confunde os desejos com a realidade. Olivença foi portuguesa sem discussões a partir de 1297, e só esteve ocupada episodicamente por Espanha durante algumas guerras, tal como sucedeu com outras praças, e tal como Portugal também ocupou praças espanholas. O argumento, no que toca ao período de 1580-1640, é confrangedor. Portugal esteve unido à Coroa Espanhola, Olivença como todas as outras localidades lusas. Sempre como parte do Reino de Portugal... ao ponto de ter sido uma das localidades alentejanas a revoltar-se em 1637/38. E, se em 1658 esteve ocupada por Madrid (até 1668), é um facto histórico que toda a sua população, salvo trinta pessoas, resolveu refugiar-se noutras localidades portuguesas, regressando só em 1668, quando a praça voltou para Portugal. E isto quando não se podia ainda falar do ocaso dos Áustrias, que só se deu de facto em 1700. Estamos perante 504 anos de presença portug
    uesa...mesmo porque em 1658 Olivença foi considerada como parte do Reino de PORTUGAL, recuperada para a administração da coroa espanhola.
    Não resisto a recordar que Gibraltar só veio para a Coroa Castelhana, por conquista aos muçulmanos, em 1462, ainda que em 1309 tenha sido conquistada pela mesma, mas perdida logo a seguir. Tendo sido ocupada pela Grã-Bretanha em 1704, e cedida à mesma no Tratado de Utrecht em 1713-14, só esteve integrada em Castela/Espanha durante 242 anos. A História tem ironias divertidas.
    Regressando ao texto que se pretende analisar, JGG dedica um parágrafo a referir outros aspectos, principalmente a ocupação de território espanhol por Portugal no início do século XIX, em parte decorrente da Guerra de 1801. Esquece que tal situação não foi citada em nenhum tratado da época, e que a ocupação do actual Uruguay, um pouco mais tarde, decorre já de nova Guerra, em que a França napoleónica invade, com Espanha, o território português. Mais, Portugal persistiu nessa ocupação principalmente para obrigar Madrid a devolver Olivença, conforme o estabelecido no Congresso de Viena de 1815.O exército espanhol que, com o acordo português, se preparava, em 1820, para ir tomar conta do Uruguay, revoltou-se e proclamou o primeiro Regime Liberal em Espanha...coisa com que Portugal nada teve a vêr. De qualquer forma, tendo a Espanha reconhecido a independência de todos os novos países da América Latina nas décadas de 1820 e 1830, evidente é que prescindiu de recuperar qualq
    uer território na região
    O parágrafo seguinte, já na página 15, merece ser reproduzido na íntegra (traduzido):"...o assunto de Olivença não admite paralelo com o de Gibraltar; este sim, que foi uma rapina, um acto de pirataria perpretrado pela (pre)potência marítima que na época foi significativamente denominada "pérfida Albión"; o (assunto) de Olivença foi, antes de mais, como já o afirmámos, uma questão de família em torno de uma herdade que esteve alternadamente nas mãos de um ou outro dos pleitantes; o argumento geográfico dos limites naturais (cordilheiras, rios, lagos) esteve sempre a favor de Espanha."
    Eis talvez os argumentos mais desprovido de lógica, pelo menos de lógica actual, digna dos tempos que correm. Começo pelo segundo (o geográfico), pois talvez seja mais simples. De facto, por uma questão de lógica geográfica, mudar-se-iam muitas fronteiras, pois os seres humanos não se dispõem segundo regras lógicas matemáticas. Portugal teria de entregar Barrancos a Espanha, mas esta teria de entregar Cedillo a Portugal. Haveria inúmeras "transacções" deste género. Ceuta e Melilla passariam de imediato para Marrocos, e Llivia, localidade espanhola isolada, seria desde logo entregue à França. Prosseguir neste caminho é inútil.
    O primeiro dos argumentos é, todavia, o mais curioso...infelizmente, o mais "chocante" também. Parte do princípio de que há conquistadores com boas intenções (os espanhóis), e outros preversos (os ingleses, claro! ). É a visão histórica (?) própria dos finais do século XIX e princípios do século XX, em que cada povo via em si quase só virtudes, e nos outros quase só maldade. Tudo o que corria mal a um país era culpa sempre de acções de outros países. Sabe-se o que tal significou nas dolorosas experiências ditatorias e nas políticas militaristas em que o século XX foi fértil.
    Podemos mesmo examinar este argumento(?) noutras vertentes! Por exemplo, o colonialismo francês dizia-se respeitador dos direitos dos cidadãos, o britânico respeitador de estruturas locais, o holandês tolerante. Do colonialismo português, dizia-se ser assimilador, e até dado a miscigenações. Do espanhol, dizia cristianizador, e orientado por princípios em conformidade.
    Todavia, todos despertaram nos colonizados (talvez ingratos) desejos de independência. E diz-nos a História que todos estes colonialismos usaram processos eticamente muito reprováveis.
    Defender que há conquistadores, ou colonizadores, cujos comportamentos são mais aceitáveis do que outros é sempre legitimar algum tipo de conquista. Faz-me recordar a publicidade, quando cada marca de detergente apregoa que o seu produto "lava mais limpo".
    Talvez não seja má idéia, aqui, prosseguir com mais uma transcrição/tradução, a última, pois, pela extensão do original, será descabido, num texto como este, tudo reproduzir. E esta última transcrição afirma que "...Olivença está plenamente inserida em Espanha e isto torna utópica qualquer tentativa de retrocessão a Portugal; não é realista pretender, nesta altura, que a situação mude; não é igual o caso de Gibraltar(...); aqui, sim, verifica-se uma sobrevivência residual de colonialismo, cem por cento anacrónica."
    Portanto, uma ocupação de 300 anos (Gibraltar) não legitima nada. Uma ocupação de 200 anos (Olivença) legitima a manutenção de uma situação de legitimidade duvidosa. No segundo caso, é utópica uma retrocessão; no primeiro, não é. Olivença está plenamente integrada, enquanto Gibraltar é administrativamente uma colónia, situação anacrónica. O facto de a despersonalização histórica e cultural em Olivença ter seguido todas as normas de um colonialismo clássico ( e pouco importa aqui como a potência administrante resolveu, em termos oficiais, denominar a sua forma de administração ) não parece impressionar JGG. Muito menos que os gibraltinos, por duas vezes, uma já no Século XXI, tenham votado a favor ( e por 99%!!!) do seu estatudo de "pobres" colonizados. Claro, dir-se-á que os gibraltinos têm sido desinformados. Esquece-se que também os oliventinos...cuja História que lhes tem sido ministrada, a julgar desde já pelos exemplos referidos neste preciso texto, mais não é que u
    ma campanha de propagando pró-espanhola ( numa perspectiva pouco científica ), como se poderá verificar por um inquérito independente sobre "verdades históricas" junto dos mesmos.
    Do ponto de vista humano, tais análises pseudo-históricas têm explicação. Mas já aqui se referiu como partem de argumentos quase inteiramente falsos.Por isso, quase nada têm a ver com os factos tal como eles se produziram. E muito menos têm a ver com a moderna Ciência Histórica!
    Qualquer debate sério sobre a Questão de Olivença não pode assentar neste tipo de preconceitos. Aliás, nenhum debate sobre coisa nenhuma...
    Carlos Eduardo da Cruz Luna R.Gen.Humb.Delg.22,r/c 7100-123-ESTREMOZ 268322697 939425126
    carlosluna@iol.pt

     
  • At 01 agosto, 2005 13:21, Anonymous Anónimo said…

    Esqueceu-se de dizer que o ROGÉRIO GOMES foi o Miguel Vasconcelos do Comércio do Porto. Um lacaio sempre ao serviço do capital...

     

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