O Comércio do Porto

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental. Envie as suas mensagens para comercio151@hotmail.com

segunda-feira, agosto 01, 2005

Até amanhã, camaradas

Foi o meu primeiro emprego a sério, embora sem direito a secretária própria durante os primeiros meses. Isso foi uma conquista, tal como tudo no Comércio. Na altura não me ralava que o jornal nunca vendesse acima de uns escassíssimos milhares - eramos todos tão felizes, guerreiros armados de bloco, uns bravos da palavra, determinados, empenhados, apaixonados por narrar o mundo. Fiz, fizemos, trabalhos tão bem feitos, tão importantes, tão esclarecidos que até me custa a acreditar no tédio, no profundo desencanto, quase ódio, que tomou conta de mim nos últimos tempos.
Fazer jornalismo regional é viver na borda da fonte da informação que realmente importa, que muda as coisas. Nunca deitei abaixo um ministro, mas contei histórias de vida fascinantes, miseráveis, degradantes, inquietantes. Contei tomadas de decisões fundamentais para a vida da comunidade, provoquei, agitei, expliquei, descobri. Metade do tempo que estive no Comércio foi de deslumbramento cego com o jornalismo e com as suas possibilidades. Perdi folgas, cinemas, jantares, convívios. Nem sempre nos apercebiamos como, sendo um jornal operário, sem todos os luxos que outras redacções tinham, eramos vistos com alguma admiração. Porque eramos a equipa mais bem oleada, mais divertida, mais camarada.
No Público de sábado, o Jorge Fiel, que trabalhou lá (toda a gente trabalhou lá, em algum momento da sua carreira), chama-lhe a melhor redacção do mundo. O Comércio, como todos os seus inúmeros defeitos e reaccionarismos de máquina velha, sempre teve essa misteriosa sedução. Casa pequena, familiar, permitia espaços de intimidade como nenhuma outra - um espírito de ninho acentuado por todas as desgraças empresariais que passamos juntos. Ano após ano, menos tínhamos. Até que deixamos de ter de todo. Eu deixei de ter de todo. E logo que pude, saltei do barco. Faz agora por estes dias quatro meses.
No dia em que se preparava a última edição, senti o estômago enrodilhar de revolta, chorei de amargura. Seis anos suados, abnegados, sacrificados para quase nada. Seis anos de vida profissional amarrotados por um qualquer tecnocrata e deitados fora como papel velho. Seis anos sem reconhecimento, sem mérito, sem um ordenado que se visse. Para mim seis anos, para muitos, muitos mais. Mas esta profissão é nómada e nómada sou eu, que embarquei noutra rota.
Seis anos de dias cheios, plenos, a estourar de felicidade, de jornalismo puro, cristalino, com brilho nos olhos, com o coração a rejubilar de vocação. Seis anos a ganhar amigos, bons, fiéis amigos, leais. Seis anos para encontrar, entre uma reportagem e outra, um amor que deu em casamento (não é mau...).
Um fim inglório, quase repugnante. Mas um fim que para muitos dos meus colegas será o pretexto que precisam para o recomeço que merecem.

Deste púlpito, um abraço apertado para todos vós. Até amanhã, mesmo. O Comércio foi apenas a praça onde fomos apresentados.

Dora Mota

21 Comments:

  • At 31 julho, 2005 23:30, Blogger Joana (Dra-D) said…

    De uma jovem lisboeta (+-), que perdeu algum tempo a ler todos os vossos posts... que de perdido só tem, o de não ter começado há mais tempo...
    Deixo-vos os meu comentário de apoio e gratidão, no mais recente...

    Porque mesmo eu sendo uma «moura» nas minhas viagens ao Porto, pelo menos 1 comércio vinha para baixo...

    Vocês representam o que é o jornalismo... a alma e a paixão do e pelo jornalismo... não se rendendo ao monopólio monetário...

    Estaremos todos cá... para o Dia-R... o Dia do Regresso do Comércio

     
  • At 31 julho, 2005 23:50, Anonymous Anónimo said…

    O "O Comércio do Porto" acabou. "A Capital" fechou. Está visto que nem sempre os espanhóis acertam. Bem, desta vez acertaram num tal António Matos, antigo correspondente do "Público" em Luanda e antigo presidente do Sindicato dos Jornalistas. O mesmo Matos que um dia Joe Berardo e afins colocaram à frente da "Gazeta dos Desportos", quando este jornal tinha vendas na casa dos 80 mil exemplares. Dois anos e meio depois fechava, como consequência lógica do facto de não ter passado a diário enquanto os restantes três jornais desportivos o fazim... Porque seria? Vamos ver onde vai reaparecer este falinhas mansas Matos. Querem ver que vai ser considerado o gestor do século? Inventam cada um...
    O "CP" acabou os seus dias a vender pouco mais de 3000 jornais por dia. Uma migalha em relação ao que se investiu. Mais uma vez ficou provado que falta ao jornalismo portuense aquilo que Lisboa tem há muito: mercado comprador, gráficos de qualidade, mercado de jornalistas, projectos não propriamente bacocos e tacanhos. A direcção que "enterrou" o CP pensou que bastava mudar o cabeçalho para tornar o jornal atractivo. Mas é preciso muito mais. Que sirva de lição para os gestores que confiam nos amigos na hora de recrutar equipas.


    eugenio queirós, in bolanaarea.blogspot.com

     
  • At 31 julho, 2005 23:55, Blogger Professor Pardal said…

    Eu como Leionense sinto pena do jornal que mais relevo dava diariamente ao meu Leixões ter acabado assim, ainda para mais quando se trata do jornal mais antigo de Portugal.
    Espero que estes trabalhadores arranjem depressa emprego e que de preferência o jornal possa voltar, se possivel para falar novamente do meu Leixões.

     
  • At 01 agosto, 2005 00:16, Anonymous Dora Mota said…

    Não falta mercado para um jornal do Norte. Falta é um projecto que seja realmente do Norte, com uma redacção forte, jornalistas em várias cidades e um projecto editorial consistente e independente. Mais de metade dos leitores de jornais lêem jornais regionais.
    O Comércio podia ter sido isso e não foi. A gestão desinvestiu nas pessoas e nas condições de trabalho, estreitou vistas quando as podia ter alargado.
    Caro Eugénio Queiroz, é preciso desconhecer muito muitos jornalistas do Comércio para dizer que no Porto falta mercado de jornalistas... Pode faltar tudo o resto, mas isso não falta.
    Se eu tivesse uns milhões para fazer um diário do Norte, fazia uma redacção genial em três tempos.
    Mas não ressuscitava o esqueleto do Comércio - que descanse em paz. Desapareceu, que fique a sua memória fundamental na história do Porto e do país.
    Eu começava de novo, com um título fresco. O nicho para um bom diário ou um bom semanário da região Norte existe, não tenho dúvidas nenhumas.

     
  • At 01 agosto, 2005 00:25, Anonymous Anónimo said…

    Sra. Dora Mota, acho que interpretou mal o sr. eugénio queirós.
    Parece-me que ele, ao dizer que no Porto falta mercado de jornalistas, terá querido dizer que faltam redacções para absorver os jornalistas, principalmente os de qualidade, e que são muitos.
    E é por isso que no Porto vingam os medíocres, ambiciosos e mercenários como o director que enterrou O Comércio. Depois, há um séquito de mentecaptos que idolatram estes rogérios adeptos do jornalismo de concubinato.

     
  • At 01 agosto, 2005 01:28, Anonymous ARDINA said…

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  • At 01 agosto, 2005 02:34, Anonymous Anónimo said…

    Ainda não perceberam que tudo isto é uma grande jogada? Que o Comercio e a Capital estavam destinados a fechar para logo logo reabrir? Claro está para servir interesses de alguém...

    Ou não tivesse a Prensa Ibérica propostas para viablizar, pelo menos o CP, mantendo-o aberto. Mas eles não quiseram... vamos aguradar e ver quem compra o título. Aí teremos luz sobre tudo isto!

     
  • At 01 agosto, 2005 02:59, Anonymous Anónimo said…

    Este senhor eugénio tem cá uma lata!!!! Mas não consegui deixar de partilhar convosco o que lhe escrevi...


    Mais uma vez ficou provado que falta ao jornalismo portuense aquilo que Lisboa tem há muito: mercado comprador, gráficos de qualidade, mercado de jornalistas, projectos não propriamente bacocos e tacanhos. escreveu isto!!!
    Será que se esqueceu que existe no porto um jornal que se chama JN. Não acha perpotente dizer que os graficos do comércio não são de qualidade?
    Será que na sua vida tudo lhe correu bem graças ao seu grande profissionalismo TENHO DÙVIDAS. e fica aqui um exemplo da sua arte de se GABAR "ficamos a xuxar no dedo. Mas valeu a pena estar perto do MAIOR JOGADOR DE SEMPRE, (em breve provarei o quão próximo estive de tal)" A VERDADE É QUE FALHOU NÃO CONSEGUIU A DITA ENTREVISTA, E SE FOSSE DESPEDIDO PELO SEU CEHEFE QUANDO CHEGASSE À CAPITAL? no minímo tenha coragem de não se fazer de noticia, quando para os leitores do seu actual jornal o importante era a entrevista com o maradona, e não uma possivel foto perto dele.... já
    agora eu trabalhei no comercio aprendi muito como profissional e como homem, e sempre ouvi dizer não atire pedras para o vizinho...
    Já que é tão bom isto é se não for despedido!!!!!... porque não se oferece para ser director do comércio e provar que é mesmo bom!! se conseguir por o meu comercio a vender 100 mil por dia e nessa altura e só nessa altura você pode ser noticia!!!! que eu até faço campanha a seu favor!



    PARA TODOS os meus colegas que não conheci, pois já sai do comércio, já lá vão 10 anos, mas que nunca o deixei de ler. o meu obrigado por se terem esforçado e não desistam!!

    Deixo aqui um repto tantas notícias de manifestações demos na primeira página porque não organizar uma com os actuais e com todos os quanto já trabalhamos no comércio pelo menos uma marcha de silêncio o NOSSO comercio merece!!!

     
  • At 01 agosto, 2005 03:31, Anonymous XAU XAU said…

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  • At 01 agosto, 2005 03:54, Anonymous Anónimo said…

    Aí é que está!!! É que havia mesmo quem quisesse o jornal!

     
  • At 01 agosto, 2005 04:36, Anonymous arroz cigala said…

    caro xau xau,

    certamente, no mundo em que vive, os empregados são sempre os culpados pelas dívidas acumuladas das empresas onde trabalham, isso já era claro para todos nós.

    O que não estava tão claro era se algum dia vossa excelência tinha trabalhado em algum dos jornais que agora fechou.

    agora que diz que nunca os leu, ficamos muito mais descansados. realmente, não era para analfabetos que os jornalistas do Comércio e da Capital trabalhavam, e assim gostaria apenas de agradecer-lhe por nunca ter lido qualquer destes títulos.

    nesta hora triste, são estas pequenas alegrias que nos fazem ter orgulho no que fizemos. o meu eterno obrigado por não ter feito parte da história destes títulos.

     
  • At 01 agosto, 2005 09:18, Blogger AM said…

    Meus amigos

    Um grande abraço de solidariedade.

    Até sempre.

    António Moreira

     
  • At 01 agosto, 2005 09:51, Anonymous Carlos Pinto Coelho said…

    A todos os colegas do Comércio e d'A Capital, um apertado abraço de solidariedade. Este blogue é um bom sintoma de que sois capazes. Sequem as vossas lágrimas, arregacem mangas, atirem-se à vida! Nós cá estaremos para vos receber e apoiar.

    Carlos Pinto Coelho

     
  • At 01 agosto, 2005 10:24, Anonymous Anónimo said…

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  • At 01 agosto, 2005 11:38, Anonymous Anónimo said…

    Um abraço solidário, de quem após largas dezenas de anos de serviço na vossa casa, passou por uma situação indêntica em 2001. Afinal os espanhóis trouxeram uma mão cheia de nada

     
  • At 01 agosto, 2005 11:44, Blogger Carlos Medina Ribeiro said…

    Numa modesta homenagem ao vosso jornal, divulguei alguns textos nele publicados há mais de 100 anos.

    Uns, são apenas curiosidades; outros, são tão actuais, que até ofereço prémios a quem souber em que ano foram publicados!

    São eles:


    http://sorumbatico.blogspot.com/2005/07/adivinha-com-prmio.html

    http://sorumbatico.blogspot.com/2005/07/adivinha-com-prmio-ii.html

    http://sorumbatico.blogspot.com/2005/07/grandes-notcias.html

    http://sorumbatico.blogspot.com/2005/08/crise-ii.html

     
  • At 01 agosto, 2005 11:47, Blogger Lady Askani said…

    Bem foi realmente uma pena, um jornal com o «gabarito» que o Comércio do Porto tinha, ter fechado as portas!
    Nos dias que passam o jornalismo bem feito, o jornalismo regrado e o jornalismo isento sao uma raridade e agora com a extinsao do nosso Comercio do Porto, de raridade passou a extinto!
    Mas é assim este povinho so gosta de ver como capa de jornal titulos como: «Cinha Jardim faz nova plastica» ou entao «Frota de volta a Portugal»... Enfim...
    Um bem haja a todos vos e terao aqui neste cantinho uma leitora assidua!!

     
  • At 01 agosto, 2005 12:18, Anonymous ROA said…

    Caros,

    Vou deixar aqui um pouco de optimismo porque tripeiro como sou, custa-me ver mais um projecto da Cidade perder-se.

    Vejam isto como o início e não como um fim. Agarrem esta oportunidade para lançarem um Novo jornal com as características regionais e com a mesma qualidade. Com a garra que estou a ver aqui pelo blog, não devem faltar pessoas para um novo projecto. Existe espaço e mercado.

    Arregacem as mangas e surpreendam os Novos leitores.

    1 abraço

     
  • At 01 agosto, 2005 13:08, Anonymous Sónia Pinheiro said…

    Dorinha! As tuas palavras fazem-me reflectir e chegar à conclusão de que por mais que muitos estagiários e jornalistas passem pelo Comércio todos nós sentimo-nos para sempre integrados no seio daqueles profissionais. Todos nós seremos para sempre da redacção do Comércio do Porto.
    Ainda me lembro do meu primeiro dia. Sentada no mac do Rui Azeredo, vinda de Abrantes, apenas com o canudo na mão e uma enorme vontade de aprender. Olhas-te para mim e disseste: "és a nova estagiária não és? Eu sou a Dora", com um enorme sorriso nos lábios. Assim te conheci, sempre alegre, pronta a ajudar e a socorrer os novos "residentes" da redacção. Passado 3 meses (e faz agora um ano da minha entrada pela porta daquela redacção, onde sempre parei para ouvir as histórias da D. Lúcia!) saí pela mesma porta, com as lágrimas nos olhos, por abandonar não só o fantástico COMÉRCIO como toda a equipa de sociedade e cultura. Mas uma coisa aprendi: ler sempre o COMÉRCIO, para aprender cada vez mais, porque muito todos vocês tinham para ensinar! Agora ao receber a notícia da suspensão do jornal, na passada sexta-feira, pela Lusa, sinto um enorme vazio. Um sentimento total de ter perdido algo de muito valioso como se de um filho se tratasse. No sábado saí de casa mais cedo! Não queria perder a oportunidade de comprar o meu último COMÉRCIO. Comprei-o, sentei-me no banco do carro e chorei. Porque me custa a acreditar que o nosso COMÉRCIO" assim tenha acabado. Não por falta de qualidade (que essa era muita) mas por falta de dinheiro, de vendas.
    Estou solidária com todos os nossos camaradas!
    Um grande abraço para todos e força meus amigos! Vamos tentar erguer-nos e mostrar que a redacção do COMÉRCIO é eterna!
    Muitas felicidades para ti Dorinha... até breve

     
  • At 01 agosto, 2005 14:02, Blogger José Carlos Gomes said…

    Ólá, Dora! Espero que esteja tudo bem nas tuas novas tarefas profissionais. Nunca me vou esquecer de agradecer-te por me teres "contratado" para o Comércio. Apesar da situação actual - ia chamar-lhe fim, mas a malta mais optimista ainda me matava -, foi excelente ter passado pelo Comércio. Senti sempre liberdade para ser jornalista de corpo inteiro, sem ter de me preocupar com as pressões exteriores. Por exemplo, soube que um presidente de Câmara fez queixa de mim ao director através de um político da oposição a esse autarca. Quis saber junto do editor - Barroso - se havia algum problema e a resposta deu-me alento para continuar na busca da liberdade e da isenção de informar: «Eu não te chamei à atenção por nada, pois não? Então, continua a fazer o teu trabalho». Continuei até ao fim.

     
  • At 03 agosto, 2005 01:20, Blogger josevinha said…

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